10 discos para esculhambar o carnaval alheio (dentro de casa)

A essa altura você já deveria saber, mas só por desencargo de consciência e pro caso de alguém aí ter passado o último ano vivendo embaixo de uma pedra ou acompanhando as temporadas anteriores do Big Brother no pay-per-view, vamos rasgar o verbo: Esse ano não vai ter carnaval.

E já que vamos todos ficar em casa escutando som mesmo, por que não esculhambar logo de vez e caprichar na trilha sonora pra garantir pelo menos a sensação de furdunço geral?

Para ajudar o folião caseiro de primeira viagem, em 2021 reativamos um clássico da nossa redação e apresentamos aqui nossa listinha com alguns discos perfeitos para os fãs de música empenada dispostos a esculhambar o carnaval alheio.

Siga o baile:

Sarine – Raízes Aéreas

Você que estava na instiga de sair atrás de bloquinho de percussão: aceite, não vai rolar. Enquanto isso na Sala de Justiça, arrume as panelas ou as almofadas do sofá e vá treinando os batuques pro próximo Carnaval com esse disco solo do percussionista Mariano de Melo (DEAFKIDS, Rakta, Felinto), verdadeiro estudo em lombra e possibilidades percussivas. São temas instrumentais confeitados com sintetizadores de timbre rococó, que é pra dar aquele gostinho de glitter. Se tiver uma tocha à mão, essa é a hora de meter fogo.

Velho – Ao Vivo em Jandira

É do calor da galera e da pulsação do palco que você tem saudade? Pois fique sabendo que também existe micareta de música feia. A prova é esse ao vivo da Velho, banda de black metal peçonhento e niilista de Duque de Caxias, Rio de Janeiro. Vista sua melhor mortalha, bote pra rolar, feche os olhos e se deixe levar pela malemolência e pelo suingue de canções lindas como “Satã Apareça” e “Perto dos Portais da Loucura”. Não deve animar muita chuva de confete, mas é show pra quem quer aproveitar que está dentro de casa pra passar ainda mais raiva. Se sentir que vai cair, se deite.

Dalva Suada – Dalva Suada

Clássico conjunto de rock empenado, patrimônio imaterial do estado da Paraíba – eis a Dalva Suada e seu coquetel de psicodelia, krautrock, baião errado e poesia rural do fim do mundo. Esse EP de quatro faixas, lançado há exatos dez aninhos e recentemente reeditado pelo selo Hominis Canidae Rec, vai do céu à sarjeta em pouco mais de vinte minutos: abre ligado no 2020 com “Amarelo”, perfeita tradução da euforia do primeiro gole e termina com “Boca Seca”, de título autoexplicativo. Na dúvida, peça um limão.

Satanique Samba Trio – Forrível

No inacreditável Forrível, o Satanique Samba Trio tenta responder a pergunta que só as almas mais perturbadas ousaram fazer: e se existisse um filme de terror com trilha sonora de forró? O resultado é um disco tão bom que pode ser usado esculhambar feriados o ano inteiro, da Folia de Momo ao Relouinho da escola de inglês. Solte o play em temas cativantes como “Rigor Mortis da porra” e “Defunto’s theme” e aproveite a pista de dança só pra você. Que no caso seria a da sala da sua casa mesmo. Boa viagem.

Buguinha Dub – Vitrola Adubada

Se você não vai ao carnaval de Olinda, o carnaval de Olinda pode vir até você. Basta soltar esse disco de Buguinha Dub pra sentir subir a marofa, o mormaço, o calor, a catinga de mijo e a suadeira típica dos Quatro Cantos. Ok, nem tudo isso é exatamente desejável. Mas a cruza de dub com frevo, baião e a típica gaiatice nordestina fazem deste disco um clássico da folia e da fuleragem, dentro ou fora de casa. Além dos benefícios medicinais da fumaça (cof cof), o ouvinte ainda leva de brinde um mini-guia de fornecedores de tira-gostos duvidosos nos arredores do Recife, graças aos merchans de Buguinha no fim de cada faixa.

Sombrio da Silva – Xablaus

Nem só de momentos bons se faz um carnaval. Tem dias que a pessoa acorda numa deprê que era até melhor que fosse Dia de Finados. Dor de cabeça, ânsia, uma sola mais podre que a outra, e ainda flashes do dia anterior e mensagens no whatsapp dos amigos frescando com sua cara. O dia anterior é um dia para se apagar da memória. Como esse ano você vai ficar dentro em casa (pelos menos é o que esperamos) bote esse disco de Sombrio da Silva e tudo que você sempre quis esquecer do passado carnavalesco vai voltar mais forte igual maldição requentada.

Ruína – Autofagia

Você é daqueles valentes que acorda, já toma uma cerveja no lugar do café e dá um pau no tubo de loló pra instigar? Pois bem, meta o play no EP Autofagia que a lombra vai bater mais forte. Se a saudade do cansaço nas pernas e da suadeira voltar é o disco certo para você correr pela sala, subir na mesa como se tivesse num trio elétrico e da janela gritar um “eu falei faraó” num megafone e escutar toda a vizinhança acompanhar você no “êêêêê faraó”. Depois pode chorar.

Vieira & Seu Conjunto – Lambada das Quebradas Vol. 1

Sente saudade dos bailes e seu negócio é bailar em boa companhia? Temos dica também. Esse belo disco, que data de 1978, é um clássico atemporal do ralacoxa. Bom para beber aquela cachaça de jambu, deixar os beiços tremendo e cair matando na cremosa no meio do carnaval caseiro. Feche as cortinas pro mode os vizinhos que podem se ouriçar também e querer comparecer ao recinto. E cuidado na coluna que pode entrevar no meio do siricutico envenenado.

Macaco Bong – Macumba Afrocimética

A experiência de carnaval é única e muita gente não curte. Principalmente se for aquele carnaval de rua como o de Olinda que a mistura mijo/axé/cerveja/charque com macaxeira/sucesso/tocha/doce é a tônica. Passar por isso é ter certeza que chega um momento que bate a nóia e tu olha ao redor e não sabe nem quem é. Procura os amigos e sumiram. Se vê num ladeira indo sabe lá pra onde e na cabeça começa a piscar “onde fui me meter?”. Misture o que você quiser, e puder, e bote esse disco ao meio dia, vá pro sol e espere bater.

Ratos de Porão – Brasil

Nós já estamos na merda, digamos lama, nesse país desgraçado e o que custa entrar no mangue e se fantasiar de Cão? Pois é. Se esse ano a prática não será possível na Praia da Redinha, basta você ligar a tv ou ouvir o rádio e tem lama suficiente para transformar sua casa num mangue. Esse clássico do Ratos é ideal para azucrinar vizinhos bolsominions no meio da madrugada silenciosa. Vai dar vontade de ficar muito doido, se prepare.

Foto: tradicional bloco Os Cão da Redinha, em foto antiga e de autor desconhecido