Discografia Potiguar: Pangaio – O Quarto (2003)

Jaquilene Linhares e Ilton Fonseca ao vivo com o Pangaio em meados dos anos 2000 (Foto cedida).

Mesmo não sendo conhecido como outros estados nordestinos como polo musical, o RN – Natal principalmente – sempre teve uma diversidade sonora. Essa seção, criada em parceria com o canal Botija Rio Grande, para dar visibilidade a discos potiguares pouco conhecidos ou indisponíveis nos streamings, vai mostrar essa diversidade. Aliás, muitos dos discos que devem aparecer aqui serão dos anos 2000 quando as possibilidades de gravação ficaram melhores e tinha muito local para se apresentar em Natal.

Foi nessa época que surgiu a Pangaio a partir da vontade de fazer música experimental com recursos da música eletrônica e tendo como base a percussão acústica. Por mais que os integrantes ainda não tivessem o conhecimento suficiente para lidar com a parte eletrônica, ideias não faltavam. Como o plano de ter um DJ na banda nunca foi possível, partiram para o lema punk DIY que Ilton Fonseca (voz) bem conhecia: microfonaram um tambor em um captador de violão que era ligado a um pedal. Quem tocava o tambor e usava o pedal era Jorge Negão (percussão) autor das letras da banda. Completavam o grupo Jaquelene Linhares (percussão) e Pablo Jorge (bateria, flauta e teclados).

Mesmo com Ilton como vocalista principal, todo mundo contribuía nos vocais. Já as letras das três músicas do EP O Quarto são de Jorge Negão. “Teísmo” em parceria com Ilton, “Coco Existencial” em conjunto com a banda e “10 Cent´s” exclusiva de Jorge. As influências da banda passavam por Rica Amabis, DJ Dolores e Vanguarda Paulista nos nomes de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.

Capa do EP O Quarto, lançado em 2003 pela Pangaio

Ilton contou como tudo começou: ” Jorge Negão, percussionista experiente da música potiguar, também via motivação numa mesma sonoridade que eu. Ele me mostrou no CD Sambadelic, do produtor Rica Amabis, a riqueza de mixar os beats da música eletrônica com uma percussão tocada não com simuladores eletrônicos, mas com instrumentos reais. Congas, tambores, indo além do regional para uma linguagem universal. Jorge Negão também tinha em seu DNA musical elementos da Vanguarda Paulista, algo que, para mim, foi de total sintonia, visto que sempre fui um apreciador de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção. Com relação ao teor das letras que cantei nesse EP, recordo que quando formamos o grupo Jorge Negão me mostrou, escritos, aforismos, poemas, esboços, que tratavam de questões existenciais, inseguranças, metáforas sobre a luta de (res)existir, nesses versos fiz algumas poucas intervenções, pois o material poético já estava pronto”.

“As gravações foram realizadas no estúdio de Eduardo Tauffic e tiveram a produção de Paulo Oliveira e Tauffic. Os instrumentos foram gravados de forma separada, permitindo aos produtores mexerem com timbres e fazerem loops, o que acabou acontecendo com nossa total anuência, visto que a música eletrônica explora esse método de gravação”, completa.

Segundo Ilton Fonseca, os recursos poderiam ser mais explorados se os produtores conhecessem as influências eletrônicas da banda, mas a banda não chegou a mostrar tais elementos a eles.

Se por um lado faltaram elementos na gravação do disco, a banda conseguiu captar o que faziam ao vivo, do que podiam fazer com os recursos de percussão, voz , teclado e flauta. Foi a primeira experiência de Ilton com gravação profissional e ele se envolveu com o repertório, com os arranjos, com a gravação e com a produção da capa.

A banda segue em hiato e merece voltar para mostrar essa sonoridade a quem não teve chance de ouvir e ver nos anos 2000.

Confira a seguir o EP O Quarto, direto do canal Botija Rio Grande: