Melhores de 2021: Alexis Peixoto

Foto por Eduardo Romero em Pexels.com

Que em 2022, a gente crie mais tempo para ouvir discos e falar de som; pra ler; pra escrever; pra respirar; pra não esquecer; pra construir; pra superar; pra dar risada; pra estar junto de quem importa.

Com esses sinceros votos, entrego minha modesta lista com meus discos favoritos de 2021, tchau e bença.

Bonifrate – Corisco

(Bandcamp / Spotify)

Em 2021 foi difícil não ouvir sinais e sintomas do que corria lá fora. Corisco não é um disco sobre o ano que passou e de certo modo nem mesmo é um disco deste ano, já que boa parte das composições são anteriores, mas é inegavelmente um disco para o agora. Em canções como “Casiopéia”, Bonifrate canta o desejo de mudança que ganha urgência a cada dia que passa, mas devolve a discussão para o campo da imaginação do futuro, condição necessária para que se construa qualquer coisa que não desabe dois dias depois. Do noise de “Corisco (Pt.1)” ao dueto com Betina Rodrigues em “Grande Nó”, um disco cheio de grandes momentos.

Floating Points, Pharoah Sanders, London Symphony Orchestra – Promises

Um produtor de música eletrônica, uma lenda viva do jazz e uma orquestra sinfônica entram em um estúdio… e saem de lá com um discaço. Não tem piada nem nada menos que uma obra-prima aqui: dividido em nove “movimentos”, Promises é uma sinfonia, um bálsamo espiritual prensado em disco, entre a música ambiente e o jazz. Por mais que a assinatura do trabalho seja coletiva, não dá pra negar que o show é mesmo de Sanders, esbanjando inventividade e fôlego de garoto em perfeita forma aos 81 aninhos. À vontade em seu primeiro trabalho de estúdio após doze anos de silêncio, o jazzman passeia sem pressa e conduz o ouvinte pelos círculos do disco como um Virgílio recém-chegado de outra galáxia. Busquem conhecimento.

Tiquinha Rodrigues – Tica

(Spotify / YouTube)

O espaço é curto para listar o longo e luminoso currículo de Tiquinha Rodrigues na Rosa de Pedra ou na Orquestra Sinfônica do RN. Então, pra encurtar a história, vamos dizer que Tica é o fruto de uma artista consciente e segura do seu alcance, da sua poética e do seu discurso. Neste que é seu primeiro trabalho de fôlego assinado com o próprio nome, Tiquinha canta a espiritualidade, o sincretismo cotidiano, as figuras maternas, o viver para a cidade e para a arte. Feito com esmero, mas com uma sonoridade deliciosamente espontânea que por vezes lembra uma gravação de campo, Tica só tem um defeito: é curto demais! Vinte minutos é muito pouco pra dar conta do universo sonoro de Tiquinha, mas gemas como “Força Divina”, “Forró para Tica” e “Benção de Las Madres” indicam o caminho.

Mdou Moctar – Afrique Victime

(Bandcamp / Spotify)

Esqueça essas bandinhas pós-punk leite com pera: o futuro do rock é tuareg. Quem não acredita pode parar de ler agora e correr pra ouvir esse discão do guitarrista Mdou Moctar, direto de Niger. Na aparência é um disco de rock estruturado no trinômio baixo-guitarra-bateria, mas o vocabulário… quanta diferença! Absorvendo o que interessa da tradição do blues, rock e psicodelia, Moctar utiliza esse chassi a serviço dos estilos e fraseados da música assouf (no vulgo, “desert blues”), e cria canções que a princípio chamam atenção por alguma familiaridade, mas permanecem pelo encanto da descoberta de um novo mundo. Além de renovar o apelido de “Hendrix do deserto” (como se precisasse), Afrique Victime é o primeiro disco dele distribuído pela “major indie” Matador Records. Fica a torcida pra que seja também mais um passo rumo à revolução periférico que o rock, esse velhinho cada vez mais entrevado e conservador, merece faz tempo.

Gong Gong Gong – Phantom Rhythm Remixed

(Bandcamp / Spotify)

Gong Gong Gong é um duo de guitarra e baixo de altíssima verve velvetiana, baseado em Pequim. Quando mostrei Phantom Rhythm, o sensacional disco de estreia da dupla, pra Hugo Morais ele comentou certeiramente: “Gostei, mas se botassem uma bateria aí…”. Dois anos depois, alguém ouviu o pedido, mas em vez de tirar de letra pela comanda foram além. O resultado foi esse Phantom Rhythm Remixed, que traz recrições para todas as faixas do álbum de 2019. E vou dizer um negócio: os beats caíram tão bem às composições que periga até ofuscar a versão original. Vale até descar algumas versões que ficaram quase irreconhecíveis, como a porrada “Some Kind of Demon”, que virou um techno pop de primeira. Não é bem o tipo de som pra escutar nas festas de família, mas é trilha sonora perfeita pro fim do mundo da próxima semana.

Oruã – Íngreme

(Bandcamp / Spotify)

Um disco difícil de uma banda difícil de classificar. Em Íngreme, a Oruã finalmente deixa de ser “a banda de Lê Almeida” e se firma como um unidade sonora autônoma, mutante e efervescente. Abrançando a contribuição de novos e velhos amigos, o grupo estreia formação nova como quinteto em um disco misterioso que, tal um fogo-fátuo, muda de forma quanto mais a gente se aproxima. Pouco interessado em refrões e estruturas convencionais, Íngreme é um trabalho que pega o termo “experimental” pelo rabo ao compreender que o importante mesmo é a busca e o díalogo, não o resultado idealizado. Referências ao krautrock, à espiritualidade de matriz africana e aos guitarreiros noventistas, compõem o quebra cabeça em canções geralmente curtas e inquietas, com destaque para a suingada “Obrei Orei” e para o single “Essência Bruta”, empenadíssimo.

Mardub – Vol. 1

(YouTube / Spotify)

Falar, escrever ou dizer “dub litorâneo” devia ser considerado pleonasmo. Longe do óbvio, o primeiro trabalho cheio do Mardub, uma piração da cabeça de Walter Nazário, Pedras, Dante Augusto e Henrique Lopes, é uma ode às belezas naturais do litoral do Rio Grande do Norte, uma coleção de nove dubs espertíssimos, cada um dedicado a uma praia potiguar, de Alagamar à Rio do Fogo. Como é normal em discos do estilo, soa mais como uma coletânea de singles do que um álbum pensado como tal. Longe de atrapalhar, isso até ajuda a marcar a individualidade de cada faixa que, como as praias homeneagadas, têm lá sua temperatura e temperamentos próprios. Entre criações mais ortodoxas (“Alagamar Dub”, “Barra do Rio Dub”), o disco também chama atenção pelos momentos tangenciais. Vide “Formosa Dub”, um “reggae-lounge” (?). Em tempo: o disco também ganhou uma versão audiovisual, viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc. Vale a viagem.

Ovlov – Buds

(Bandcamp / Spotify)

Guitarras topadas, amizades, lembranças, calor demais. O terceiro álbum do Ovlov é um saudável exercício de memória, um diário escrito segundo o Evangelho do fuzz e do power chord. Tudo poderia acabar num fútil exercício de nostalgia se o objetivo fosse tão somente retornar ao passado, em vez de reconhecer e acolher a memória como parte de uma identidade própria. Entre muitos pontos altos desses curtíssimos 24 minutos, destaque para o single “Land of Steve-O”, dedicado a um amigo dos tempos de colégio do vocalista e guitarrista Steve Hartlett, e para “Feel The Pain”, uma resposta carinhosa ao clássico homônimo do Dinosaur Jr. que poderia tranquilamente se passar por um single perdido do Teenage Fanclub.

Neil Young & Crazy Horse – Barn

(Spotify)

Pensou que o véio tinha travado? Pois tá aí, ligadaço e doido pra fazer uma zuada. De volta à saudável companhia da Crazy Horse, eis um bom disco de rockão cru, sujo e rasgado como só esse coroal sabe fazer. Gravado praticamente ao vivo e sem muitos retoques em um celeiro, Barn é barulhento, mas não perde a ternura – vide “Tumblin’ Trough The Years” ou “Don’t Forget Love”, que fecha o disco. Aos 76 anos, Neil Young soa vigoroso quando canta sobre as incertezas do mundo pós-Covid, a crise climática ou a náusea da modernidade. Peça central do disco com seus oito minutos de barulho gentil, “Welcome Back” resume o recado no refrão sussurado como um segredo: “Welcome back/It’s not the same/ The shade is just you blinking”. Dica: ouça fora dos fones, de preferência em volume alto e com as portas e janelas abertas.

Amaro Freitas – Sankofa

(Bandcamp / Spotify)

Depois do elogiado Rasif, o pianista recifense volta com este Sankofa, gravado em companhia de Hugo Medeiros (bateria, percussão) e Jean Elton (contrabaixo). O título faz referência a um ícone da cultura dos povos Acã, da África Ocidental, que representa o retorno ao passado como forma de ressignificação do presento e construção do futuro. O recado tá mais do que dado, e uma rápida vista d’olhos por alguns dos títulos das novas faixas – “Cazumba”, “Batucada”, “Nascimento” – dá a liga do encontro do jazz com o frevo, o baião e o coco que conduz o disco. E ainda tem essa capa, certamente uma das mais bonitas do ano.

Wednesday – Twin Plagues

(Bandcamp / Spotify)

Quando a gente (no caso, eu) achava que não dava mais pra extrair nada da velha dinâmica morde-assopra-morde de novo, eis que o segundo disco do quinteto americano Wednesday me bate na cara com a sutileza de uma kombi despencada do oitavo andar. Pesado e mais esmerilhado que a estreia (o altamente recomendável I Was Trying to Describe You to Someone, do ano passado), a banda traduz as letras da vocalista e guitarrista Karly Hartzman para o idioma comum do rock de guitarras, mas com espaço suficiente para respirar outros ares, como o country rock e o folk. Veja você que tem na banda tem um cidadão que toca lap steel como se fosse uma Fender Jaguar e tá tudo certo. Pra ouvir e fazer air guitar com fé renovada na rapaziada.

Valciãn Calixto – Macumbeiro 2.0

(Bandcamp / Spotify)

Em seu novo EP, o afropunk de Teresina sintoniza suas antenas para a intersecção entre ancestralidade e tecnologia, sem abrir mão da sua pesquisa de ritmos e linguagens musicais do Brasil contemporâneo, do funk ao pop de by night. Produzido em casa com métodos de guerrilha e de tentativa e erro, como o próprio artista explicou em um faixa a faixa publicado aqui mesmo nesta folha, Macumbeiro 2.0 é um trabalho de assinatura muito particular como tudo que Valciãn faz, mas profundamente conectado a discussões mais amplas, nas quais outros discos aqui mencionados também se inserem. E até o fechamento deste post, “Desmistificando Pomba Gira” segue na dianteira como a música mais chiclete já composta por Valciãn.

The Exorzist III – Gospel Jamming Vol. 1

(Bandcamp)

Na real, não faço ideia que diabo de disco é esse ou quem é esse povo. Captei essa mensagem em meados de novembro pela transmissão de alguma web rádio que já esqueci qual era, e estou até agora sem entender direito. Só sei que o som é bom de entortar o juízo. Aproveito esse tom de mistério pra encerrar por aqui essa listinha que já disse o que tinha que dizer. Tchau, cuidem-se, até mais.