Dinosaur Jr traz melhor do mesmo em disco novo

A única novidade mesmo são os óculos de mosca. (Foto: Divulgação)

“Sozinho não presto pra nada” – eis as primeiras palavras que J Mascis canta em Sweep It Into Space, novo disco do Dinosaur Jr. A frase, refrão de “I Ain’t”, anotada aqui em tradução livre, é o moto perpétuo que move a banda, caso raro de longevidade e vitalidade entre sobreviventes da velha guarda underground.

Doidera pensar que esse já é o quinto disco deles depois do reencontro de Mascis, Lou Barlow e Murph, formação que gravou clássicos como You’re Living All Over Me e Bug nos anos 80. E digo mais – de 2007 pra cá, o Dino Jr. ressuscitado já produziu mais discos do que na fase áurea. E o melhor é que fez isso sem precisar reinventar a roda ou reformular o som que lhe deu fama. Familiaridade, afinal, é um componente central no som do Dinosaur Jr. e é o que permite o entrosamento entre esses senhores que, mesmo com as pausas, tocam juntos faz uns trinta anos.

Capa de Sweep It Into Space, do Dinosaur Jr,

Indo direto ao ponto, não há nada em Sweep It Into Space que você já não tenha ouvido em álbums anteriores da banda. Ok, talvez “Take It Back” surpreenda alguns pelo flerte discreto com o ska, mas nada que dê motivos pra arrancar os cabelos (mas sim, é uma das mais fraquinhas do disco). No geral, Sweep It… traz o melhor do mesmo da escola Dinosaur Jr de tocar rock – solos de guitarra escaldantes, voz preguiçosa e cozinha afiada segurando a onda por trás. Faixas como “High Another Round” ou “Walking To You” não estariam deslocadas num disco como Green Mind, por exemplo.

Mas não se trata de repetição ou estagnação criativa, e sim de segurança – no próprio talento, na própria história. É muito comum cobrar dos artistas uma reinvenção constante, como se bandas fossem empresas que precisam “inovar” a cada novo produto posto no mercado. Nada contra. Mas em rota oposta, há os que se dedicam a refinar um estilo próprio, e nesse processo acabam (re)descobrindo pontos a serem explorados na própria trajetória.

Mascis já disse em entrevistas que o conceito inicial do Dinosaur Jr. era ser “a banda de country mais ensurdecora do mundo”. Então, não é de todo estranho que o disco novo tenha uma música como “I Ran Away”, um falso country rock com direito a linha de guitarra de 12 cordas de Kurt Vile – aliás, co-produtor do disco e fã do Dino das antigas. Também não vai surpreender ninguém que o violãozinho de “And Me” lembre bastante o de “In Between Days”. Oxe, e não foi justo um cover do The Cure que rendeu ao trio um de seus primeiros hits? Coerência, por favor.

A versão 2021 do Dinosaur Jr é a melhor versão da banda que poderia existir, porque traz a bagagem de todos aqueles discos clássicos aliada ao desejo de permanecer unido, tocando, criando com a gana de sempre.

Mesmo sem grandes surpresas, Sweep It Into Space é ótimo para velhos fãs e sob medida para apresentar a banda a quem ainda não conhece. Ou seja, qualidade em qualquer direção.

Vida longa aí, bichos.