Fotos: Rafael dos Santos (@rs.pamps)

Ah, a música feia… tem coisas que só ela faz por você. Por exemplo, reunir três das bandas mais interessantes do Brasil atual em um rolé em pleno centro da cidade, por um precinho simpático e o bônus de encontrar toda a “nata do chorume” do underground natalense reunida. O que é sempre um prazer, diga-se.

Foi nesse clima de encontros e reencontros, cervejinha gelada e gréia, que Deafkids e Test desembarcaram num sábado a noite no Backstage Bar, na passagem da No Hope Tour V por Natal. De quebra, ainda trouxeram a sempre bem-vinda Papangu de João Pessoa. No dia seguinte, as três bandas tocariam de novo na capital paraibana no encerramento da turnê, que saiu de São Paulo e antes daqui rodou por outras cidades do Nordeste , como Recife, Maceió, Vitória da Conquista, Feira de Santana e Salvador.

A local TV Kills deveria ter aberto a noite, mas por motivo que desconheço (leia-se: não apurei) acabou substituída pela Poop. Não conhecia, e confesso que vi pouco do set dos caras mas lá na calçada do Backstage chegou a história que eles têm uma música chamada “Círculo Vicioso”, que a letra toda é só os nomes dos prefeitos de Natal, de Wilma de Faria até aqui. Dava até pra ter puxado essa conta de mais longe, mas achei sensacional de toda forma.

Depois, veio a Papangu. Em versão quarteto e pela quarta vez em Natal (ou foi o que entendi da fala do vocalista e guitarrista Hector no final), vieram com a força do elogiadíssimo Lampião Rei e não desapontaram com um set mais experimental do que a última vez que os vi, há pouco mais de um ano. Segundo nosso amigo Alex de Souza, maior fã natalense da Papangu residente em João Pessoa, os caras são “os filhos do King Crimson que vocês não conseguiram queimar”. Lá fora — a calçada virou um ponto quente pra comentários e troca de impressões entre os shows, com contribuições valiosas de Rafael F da Valvulosa e do disruptor Alexandre Honório — a banda de Robert Fripp foi novamente citada ao lado de outras prováveis influências do grupo paraibano, como Rush e Hermeto Pascoal. Da minha parte, pensei em Ave Sangria da fase Ivinho. Enfim, cada um tinha uma teoria pra tentar dar conta do rock troncho dos caras e todas tinham a ver. A galera que chegou cedo só pra ver eles aprovou.

O rock troncho da Papangu foi tema de debates quentes na calçada do Backstage (Foto: Rafael dos Santos)

Na posição do meio do rolé veio a Deafkids, que voltou a Natal depois de uma passagem marcante pelo Festival DoSol uns anos atrás. Salvo engano, vêm pela primeira vez com essa formação em duo, que eu ainda não tinha visto ao vivo. Tive a impressão que o som está ainda mais abrasivo e experimental. O bom uso de bases programadas abriu mais espaço pras intervenções de percussão do baterista Mariano (aliás, quem não conhece os discos dele como Sarine, vale muito a pena ir atrás). Ainda na passagem de som, Breno Xavier (guitarrista da Antiskeumorra, Deuszebul) matou a charada quando apontou a sacada-mor do Deafkids, que foi fazer a ponte entre o D-beat do Discharge e a música eletrônica (techno, principalmente). De fato, o Deafkids ao vivo de 2025 é uma espécie de rave do mundo bélico: dá pra dançar e até ficar feliz, sem esquecer nem por um segundo que o mundo tá acabando. E digo mais: não ficaria estranho num rolé no Clube Frisson.

Mariano (Deafkids) dando uns tapas (Foto: Rafael dos Santos)

Passando a régua na noite, veio a Test. Minha primeira vez vendo os bichos ao vivo e posso garantir que os relatos que ouvi não foram exagerados. É rápido e intenso, mas bem longe de ser caótico. É como se os dois da banda – João Kombi, guitarra e voz; Barata, bateria – fossem duas partes de um mecanismo perfeitamente sincronizado e de uma precisão assombrosa. O set ainda teve uma participação luxuosa dos Deafkids em funções percussivas que me trouxe um eco da fala de Alex mais cedo, imaginando as duas bandas como filhos do Sepultura do Chaos A.D. e do Roots com a Nação da fase Da Lama ao Caos.

Test: precisão do relógio do apocalipse (Foto: Rafael dos Santos)

Bonito demais de se ver e ouvir, mas só pra quem sabe que a beleza se acha em todo canto — até no que aparenta ser feio.

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