A banda paraibana Tela Azzu lançou Baleia Explode com uma mistura de ritmos que ao desavisado do som troncho, causa estranheza. Mas para nós que curtimos sons variados, agradou. Resolvemos bater um papo com Iann Wilker (vocal) sobre a banda e do alto de sua juventude ele se empolgou e falou bastante sobre influências e problemas que assolam tanto as bandas novas como bandas já mais experientes no mercado combalido da música brasileira. Pelos menos a independente.

Se você curte mpb, rock, metal, forró e jazz pode ir fundo.

Hugo Morais – Pra início, vamos ao começo. Como surgiu a banda? Foi da velha união de amigos afim de fazer som?

Iann – Eu comecei cedo na noite de João Pessoa, lá por 2016, aos 17 anos, com uma bandinha indie da qual Arthur, guitarrista da Tela e na época namorado de uma colega de escola, já fazia parte. M bomas foi em 2017 enquanto saíamos do ensino médio que eu e ele fundamos uma banda de metalcore modernão (Pollar) pra satisfazer nossa vontade de fazer um som mais pesado e simultaneamente fui chamado pra tocar baixo na Turmalina Parahyba. Que fazia inicialmente um som na pegada de rock regional, mas já com um toque de loucura peculiar. Foi onde comecei a despertar pra sonoridades brasileiras, nordestinas e loucuras progressivas, e também onde conheci Marcus (baterista da Tela), que a essa altura já tinha uma trajetória legal por várias bandas legais, e reencontrei Diogo (também guitarrista da Tela Azzu) com quem já havia feito alguns ensaios sem compromisso e nos demos bem.

Passamos uns três anos de atividade tocando em tudo que era canto por aqui e pelas redondezas, Recife e Conde, sem nunca ir muito distante. E foi pouco tempo antes da chegada da pandemia que a situação em ambas as bandas foi se tornando insustentável por causa de falta de sintonia de ideias e ritmo de trabalho entre os integrantes.

Foi aí que surgiu a primeira versão da “Tela Azul” no fim de 2019, pouco antes da pandemia. Nessa época o único músico atual que fazia parte fora eu, era Diogo. Chegamos a gravar algumas músicas no estúdio musical do baterista na época, Felipe Ceará da banda Santo Chico e Marina Peralta. Foi quem viabilizou os primeiros contatos e ensinamentos sobre captação e mixagem e masterização, coisa que nos aprofundamos muito por conta própria (eu e Diogo) durante a época pandêmica.

Nos primeiros meses de pandemia além das bandas que eu estava (incluindo a “Tela Azul”) terem indo parando aos poucos em momentos diferentes até chegarem ao fim, eu começava a compor pela primeira vez algo totalmente solo, e apesar de alguns lançamentos, aquilo não me satisfazia. Não sentia que estava nenhum pouco mais próximo dos meus sonhos e sentia uma enorme falta de trabalhar com meu amigo Arthur. Foi aí que realmente renasce a Tela Azzu de hoje no inicio de 2021.

Eu tinha acabado de gravar 10 demos de músicas e pedi a Arthur pra ouvir e dizer se tinha interesse de fazer alguma coisa com aquilo, se colocar com a guitarra no meio daquele som e ele topou na hora. Daí fomos atrás do restante do pessoal pra formar a banda e a primeira sugestão quem deu foi ele, de chamar Lucas pro baixo, que a gente conhecia da cena do metalcore daqui e tinha uma boa relação. O problema era que ele nunca tinha tocado baixo antes (risos), mas eu mandei a proposta e ele topou sem piscar. Depois eu fui atrás de Diogo pra assumir os sintetizadores (e mais tarde outra guitarra), que também topou, e tava indo tudo bem tirando o fato de que baterista disponível em João Pessoa é algo bem raro. E não queríamos colocar alguém que não fosse muito gente fina e que não tivesse interesse nos ritmos nordestinos, nos tempos tortos e etc. Então permanecemos nesse limbo pandêmico gravando com bateria MIDI e tudo a distância, lançamos alguns singles e continuamos nessa dinâmica se entrosando cada vez mais até que em 2022 Marcus demonstrou interesse no que a gente tava fazendo e aceitou o convite. Na época estávamos prestes a lançar a última música com batera MIDI chamada “azzu” e já sonhávamos com o que iríamos fazer em seguida e que resultou no Baleia Explode.

Uma curiosidade sobre o nome da banda é que originalmente seria “Tela Azul” pra fazer um alusão entre a psicodelia e a modernidade, mas no exato mês em que a gente foi postar o primeiro som (“Stunado”) no Spotify, em 2021, uma banda usou esse nome e postou material antes. Daí como já tinha todo conceito e logo pronta, a gente decidiu ocupar o mesmo número de caracteres e dobrar o “Z” pra fazer alusão a forma como soa a palavra azul no sotaque nordestino.

Interessante saber dessa história do metalcore porque o som atual apesar de pesado em alguns momentos, tem outros que parece MPB. Lembrei até de Ivan Lins em alguns momentos vocais. Como foi essa construção do disco, dessa misturada?

Mano, o disco falando fisicamente, foi bem complexo de fazer porque também acompanhou o nosso processo de entrosamento, então começou mais devagar e no fim já estávamos fazendo músicas com 5, 6 partes diferentes. Um fator fundamental para a mistura dar certo foi que antes mesmo da gente se entrosar e se tornar muito amigo, a gente já tinha uma admiração artística uns pelos outros muito verdadeira. Isso viabilizou que todo mundo se sentisse confortável de expressar suas ideias por mais malucas que fossem e também ajudou a gente a ter carinho e cuidado na hora de lapidar e lidar com essas ideias trazidas.

Apesar de todos os cinco terem coisas que a gente gosta em comum, bandas daqui como Augustine Azul, coisas gringas tipo Mars Volta e King Gizzard, a gente também tem gostos muito diferentes e trazemos essas referências pra dentro dos nossos sons sem vergonha. Se é Calcinha Preta ou Gojira, aí fica um negócio muito troncho que depende muito também de timbrar os instrumentos já pensando em como vai ficar a mix. Tipo, se tem muito bumbo e muita nota grave no baixo de uma música, a gente toma cuidado de não fazer o timbre infernal de distorção na guitarra pra não embolar. E caso embole, que seja algo proposital. Que ajude a música a expressar o que ela está tentando passar.

Uma coisa engraçada que acabou se tornando parte do processo da gente fazer nossos sons foi que, por não termos grana pra estar nos encontrando com mais frequência, a gente se encontra uma vez por umas 3/4 horas na semana, às vezes acumulando cansaço da vida de classe trabalhadora e não damos conta de terminar um som inteiro de uma vez. Aí a gente vai fazendo partes, gravando as partes em áudio de celular, e quando a gente diz “chega,vey” eu junto todas essas partes feitas semanas a fio em um áudio só e a gente fica escutando sozinhos em casa até naturalmente irmos decorando tudo. (risos)

Interessante que as vezes uma parte que a gente fez pra ser uma intro, nessas montagens bate a ideia e isso acaba virando o refrão ou sei lá, e os meninos também opinam e curtem.

Então algumas músicas são literalmente colagens.

Sim, às vezes um pedaço que ia ser uma intro acaba virando um refrão na colagem, coisas assim. Acho que vem muito da nossa relação com artes visuais que todo mundo admira, discute e pratica bastante. E eu sou suspeito pra falar porque estou há muito tempo cursando licenciatura disso. (risos)

Como estão os espaços pra tocar em João Pessoa e no entorno em geral? Você citou várias bandas no e-mail que mandou, produzem eventos juntos?

Cara, isso é uma parte grande do problema daqui. Dentro da cidade não é como se faltasse lugares pra se tocar, mas a maioria das casas de show não tem intenções de melhorar infraestrutura sonora, o que ajuda a dar uma desvalorizada na qualidade das apresentações e dos eventos.

Além de rolar em pequena escala o que acontece nos grandes festivais do Brasil hoje em dia. O medo de mudar a programação e colocar artistas novos em bons dias/horários. Sobra uns meios de semana, uns horários totalmente não condizentes com o horário de disponibilidade do público que trabalha, por exemplo.

A outra parte escabrosa é um problema que também acho que não é só daqui, que é o fato de que na maioria das vezes uma banda local tem que pagar pra tocar. Seja com aluguéis absurdos de palco/som da própria casa de show ou às vezes com fatias ridículas de percentual dos ingressos. Que ao meu ver se torna exploratório porque a gente nunca tem uma fatia das vendas do bar, por exemplo. Aí o ingresso a 10/15 reais (que uma banda nova não pode pôr mais se não é suicídio de evento) e os cara ainda querem uma fatia. A título de comparação, tem muitos lugares que 15 reais é só o preço de um drink, uma cerveja 600ml, e o público consome geral enquanto os artistas tem que exigir água, se não, não dão!

Sobre o entorno, noto que quando saímos da cidade somos melhores recebidos, apesar de ver os mesmos problemas, existe sempre uma preocupação se é um evento com mais bandas ou se é um organizador de eventos em pagarem pra banda visitante, nem que seja uma ajuda de custos com a gasolina. Em suma, somos melhor recebidos fora do que dentro da própria cidade.

E sobre tocar com as outras bandas daqui, não aconteceu ainda com aquelas que te mandamos no e-mail, apesar da Papangu valorizar muito o nosso trabalho e já termos pretensões num futuro próximo de organizar juntos. Além de já recebermos integrantes no palco e fazermos jams juntos em nossos shows com direito a duelo de flautas e tudo. (risos)

Já tocamos ao lado de um pessoal muito legal da banda Tenaz, da Flores Baldias, da Sorrystate, Emerald Hill, que apesar de às vezes não sermos completamente fãs do estilo musical, valorizamos MUITO o esforço deles e a ética de trabalho por notar ser verdadeira a vontade de expressar-se artisticamente.

Cara, vou abrir um adendo pra falar de um negócio que é importante com relação a shows por aqui. A grana é algo fundamental para o funcionamento e o deslocamento da banda. E mesmo nós da Tela conseguindo fazer um cascalho ultimamente com a venda de merchan, que mistura obras de artes visuais e etc, não é o suficiente pra bancar tour. Então o que rola é uma grande expectativa e preparação pra oportunidades de editais de fomento cultural.

Isso gera outros problemas que se eu for me delongar aqui, vou escrever uma bíblia (risos), mas perpassam por panelinha, segregação de artistas que não tem alto nível de escolaridade e por aí vai.

E tudo isso que você falou não é algo novo. E com a pandemia muitas casas menores fecharam. Ficou um abismo. Os custos aumentaram muito. Tanto que essa semana saiu notícia que tem festival tomando prejuízo. Por outro lado tem banco fazendo festival.

Digaí pô, essa pandemia acelerou um processo sobrenatural que a gente tem às vezes como natural, que é quem retém a grana vai ficar cada vez mais rico e quem não tem vai se foder cada vez mais. De modo geral tudo foi precarizado né, aí o mercado artístico já num era essas coisas…

A gente foi chamado pra um festival em Recife esses dias que a galera não garantiu ajuda da gasolina e nem um pão com mortadela quando a gente chegasse lá. Falo isso não pra meter o pau na galera do evento, mas sim pra ilustrar como tá cada vez mais precarizado. Claro que tem muito mala por aí também, mas não acredito que seja o caso. (risos)

Quanto às temáticas das letras, como funciona? O disco da Papangu por exemplo é conceitual, todo temático. E com vocês como funcionou nesse disco?

Vey, a gente já está começando a produzir um conceitual com história de início, meio e fim. Mas no caso do Baleia Explode tem um conceito mais difícil de enxergar à primeira vista que amarra as músicas. Nas artes visuais tem um termo chamado “inframince”, criado por um maluco chamado Durchamp, que ele diz que é um negócio que não dá pra ser definido, apenas entendido através de exemplos. Coisas geralmente bem microscópicas, por exemplo: o momento de um beijo antes dos lábios se tocarem ou a sensação gélida que dá depois da gente se ralar de leve em alguma superfície pontiaguda. Enfim, micro e nano momentos que fazem parte da experiência de vida humana como um todo e que às vezes cabem um universo inteiro dentro daquele acontecimento ou às vezes não acontecimento.

A lombra das letras do Baleia Explode são meio que minha cabeça tentando contar histórias, ilustrar momentos, memórias ou conversar sobre algum assunto utilizando disso. Em “Pseudo-Reggae” por exemplo, eu falo sobre o falecimento de uma companheira de trabalho pro câncer, falando, ilustrando o que eu conhecia da vida dela através de sensações provocadas por palavras como “varrer com o sol nascendo” que remete a alguém que trabalha duro em condições difíceis. O trecho “Na alameda da destruição se fazem metástases” pra falar sobre a doença que mesmo a assolando, não impediu o fluxo de trabalho e de vida e por aí vai. E apesar dos assuntos serem variados como sei lá, “Maracutaia” que conta uma história fictícia baseada na paixão que a banda tem por temas alienígenas e filmes como “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, se tem uma coisa comum à todas as letras é o processo, pois todas foram feitas pessoalmente na hora do ensaio com as primeiras palavras que vinham na minha mente pra ilustrar o que a massa sonora que os meninos produziam ressoava pra mim. Às vezes tem uma lapidada depois de uma epifania em casa sozinho ou em outro ensaio, mas a ideia geral vem toda de uma vez simultaneamente com a composição do instrumental, que é algo que vem ocorrendo desde o single “azzu” e que eu pretendo levar adiante nos próximos trabalhos também.

Pra finalizar, após esse lançamento quais os planos da banda? Você falou que tocaram no entorno de João Pessoa. Estão vislumbrando levar o show para mais longe? Têm mandado o disco para o que restou do jornalismo cultural Brasil afora e como está a aceitação?

Os planos daqui pra frente são de justamente exportar o som e o show pra outras cidades, fazer nossa primeira tour no segundo semestre do ano e lançar algumas coisas tipo documentário sobre o album, mais um videoclipe, live bem produzida e sem falar que já temos um esqueleto de álbum sendo feito há algum tempo do qual será nossa aposta pra lei de incentivo com previsão pra lançarmos ano que vem.

E sobre o jornalismo, essa tá sendo a parte mais difícil, temos mandado bastantes emails, directs, mensagens e temos recebido um feedback INCRÍVEL. Notamos que a galera que se prestou a ouvir, realmente entendeu e gostou, incentivou de uma maneira que nós nunca vimos. Mas por incrível que pareça, por enquanto pelo menos, é muito mais o pessoal distante: São Paulo, Joinville, vocês. Aqui da Paraíba e em mais lugares do Nordeste está dificílimo sequer visualizarem as mensagens.

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