Negro no Poder, clássico da Cidade Negra, completa 30 anos

Nas domingueiras da boate Liverpool em 94, quando tocava música nacional, duas se destacavam: “Querem Meu Sangue” e “Onde você Mora?”. Como diria Alexis Peixoto: tocavam mais que cantiga de grilo. Nessa época Toni Garrido já estava à frente dos vocais da Cidade Negra e de lá até hoje ele é a imagem da banda. Muita gente nem deve saber que antes dele a banda lançou dois discos mais politizados com Ras Bernardo como vocalista. Na busca por fotos é difícil achar que não seja a capa dos discos. São 30 anos…

Nos anos 80 a banda surgiu como Novo Tempo com o trio Bino, Da Gama e Lazão. Surgiu na igreja que o pai de Bino frequentava. Com a entrada de Ras Bernardo (1983) virou Lumiar. Pela existência de outra banda com o mesmo nome se tornou Cidade Negra. Quando a BBC gravou um documentário sobre a Baixada Fluminense dando destaque a banda, a Sony (CBS na época) se interessou e assinou contrato.

Lute Para Viver, lançado em 1990, já mostrava uma banda pronta. Com hits como “Mensagem” – com participação de Jimmy Cliff – e “Falar a Verdade” a banda estourou. A mistura de engajamento social, político e religioso com um reggae que abraçava diversas influências levou a banda ao sucesso.

Em 1992 veio Negro No Poder, disco ainda mais politizado como já aponta o título. O disco abre com a música de mesmo nome revelando um dia a dia que permanece até hoje: desrespeito, abuso de poder e maus tratos com os negros.

O disco é o retrato de uma periferia que, se Bernardo canta uma mudança e esperança, não mudou muito de lá pra cá no contexto de país. Em “E.M” se mostra o roteiro de violência da polícia. Trinta anos atrás o roteiro é de hoje com a invasão de favelas com planos de ocupação, ou caça a traficantes, que resultam em tiroteios onde muito inocente perde a vida. Com frequência crianças e adolescentes como mostra o noticiário. Outra triste realidade se mostra em “Sai-Lário”. O título é autoexplicativo e para aqueles que afirmavam que íamos sair melhores dessa desgraça de pandemia, está aí: ricos mais ricos, pobres na miséria. A fome cresceu na medida que mais gente se torna milionária.

A televisão e seu noticiário seletivo também têm espaço em “Na Frente da TV”. As TVs passam o que querem para desinformar o telespectador. Se já era difícil naquela época, imaginem hoje com as redes sociais e inúmeros canais que atendem todo tipo de necessidade empresarial. Concessões públicas que trabalham contra o povo. Nem no momento onde mais de meio milhão de pessoas morreram algumas insistiram em transmitir mentiras. Com a chancela de um presidente da república que antes de tudo é um marginal.

Mesmo diante da realidade cruel Negro no Poder vai além mostrando esperança nos dias vindouros, como em “Incandescente Ser”, “Há Motivos” e “Conciliação”. Esperança por mudanças que já se mostravam no dia a dia ou pela positividade do pensamento. Combater o mal também no aspecto mental e buscar o diálogo.

O disco ainda traz duas versões bem interessantes. “Zumbi”, de Jorge Ben, e “Mosca na Sopa”, de Raul Seixas. Repaginadas, as músicas ficaram a cara da banda que usa de referências não só do reggae, mas de samba e de rock. “Mosca na Sopa” tem metais e uma cuíca potente ao fundo.

Se você só conhece a fase “Tony Garrido”, com uma pegada mais pop, aperte o play nesse clássico dançante e político da Cidade Negra e ainda passeie por Lute Para Viver, disco de estreia da banda.