Eliano está de volta com disco intimista e novas sonoridades

Foto: Cleanto Rego

Eliano é de Pau dos Ferros, cidade do Oeste potiguar, longe dos holofotes da capital Natal que concentra a produção artística do estado. Para a sorte dele, e a de quem gosta da boa música, a distância física não é um problema há muito tempo.

Seis anos após o disco de estreia Ecdemomania, Eliano volta com Eliano e Outros Silvas. O disco marca uma mudança na sonoridade, antes baseada na voz e violão. Ela continua presente, mas a busca por novos elementos vai do rock ao eletrônico. E ao contrário do disco de estreia, o novo álbum foi gravado de forma remota, com participação de João Carlos, Jack Jones, Yves Fernandes e Anderson Bryan, por causa da pandemia.

Capa de Eliano e Outros Silvas

Se há uma mudança na musicalidade, o caráter pessoal e de observação segue presente nas letras que funcionam às vezes como crônicas do dia a dia. Eliano vai do amor ao racismo, sentido literalmente na pele e exposto em “Suspeito”. Uma música pesada, de tom político que expõe uma faceta da sociedade que muitos achavam que ia mudar nos dias atuais. O peso que fica se dilui em “Marinheiro”, música que por meio de voz e violão se mostra como declaração de amor a Mariane, companheira de Eliano.

Muito desse disco surgiu exatamente por causa do isolamento, da vida a dois, das mudanças que ocorreram entre 2019 e 2020 na vida de Eliano. “A cura” remete ao passado, é uma canção que narra os rolés em Pau dos Ferros, como lembra Eliano: “A gente saía da faculdade e ia beber cerveja na conveniência de um posto de combustível em frente. E falávamos sobre tudo, nossos erros e planos”.

Eliano é um artista que não gosta de exposição, em uma época que se mostra tudo nas redes sociais. Se a grande exposição não é algo que o agrade, a inserção de dois áudios em músicas do disco mostram que as opiniões de gente próxima a ele são importantes. O pai elogia o trabalho em “Prece” e Daniel Russo, um amigo, diz que ouviu uma música dele numa rádio em “Tudo na Paz” e também elogia. Apesar do título, a música fala em prisão a céu aberto e deserto. Uma música com pegada pop dançante, inspirada no Daft Punk, que aborda a perspectiva de que mesmo com uma paz reinante, essa paz pode significar um vazio.

“Qual o Seu Interior”, que encerra o álbum, é a música que mais destoa do todo. Uma música eletrônica do começo ao fim que mistura o interior (cidades fora dos centros urbanos) e o interior de cada um. Os interiores de Eliano se alinham e, assim como o povo do interior, traz uma visão positiva dos dias a seguir.

O álbum é um projeto da Incubadora DoSol com capa de Caio Vitoriano e produção de Eliano. A co-produção é de Anderson Foca, Anderson Bryan e Yves Fernandes.