Unidade e Contradição apresenta o single “Expurgo à Ofensiva Fálica”

Por Hugo Morais

Durante a pandemia muitos artistas resolveram criar novos projetos para em meio ao caos, incerteza e insegurança, botar para fora em forma de música vivências atuais e passadas. Diárias. A Unidade e Contradição(RN), novo projeto de drone/doom metal de Geovana Grunauer e Alex Duarte, foi uma delas. Ambos são conhecidos pela participação em bandas da cena underground de Natal como MortoSon Of a Witch e Tesla Orquestra, além da atuação na luta antifascista e iniciativas de auxílio a pessoas em situação de rua. A banda não poderia ser nada mais que a extensão deles mesmos e com isso promover por meio da música o diálogo, a discussão e o enfrentamento sobre assuntos tão presentes na música, no rock muitas vezes de forma velada, como machismo, homofobia, racismo e outras formas de opressão.

Batemos um papo com a dupla sobre o surgimento, o som que eles fazem, o single lançado e planos futuros.

O Inimigo — Pra começar, fala um pouco sobre o que é o drone/doom metal pra quem não é entendido.

Unidade e Contradição — Então…quando começamos a compor, pensamos em como poderiam ser as composições, partindo das influências de cada um. Esse processo acabou por ir além de nossas expectativas, primeiro porque pensamos em como poderiam ser as composições e, com isso, juntar o ritmo desacelerado e bastante pesado do doom metal e seus riffs “martelada” com o noise, ambient e o drone music, que é um estilo minimalista de notas sustentadas, aglomerados de tons, noise… O gênero drone explora ambientações que se utilizam de efeitos de modulação, tanto em pedal quanto em experimentações com synths, quase transportando o ouvinte para uma outra dimensão, dado o caráter cósmico das atmosferas criadas. O legal do estilo é que ele funciona muito bem com outros. Mas quando a música foi sendo construída, esse processo enriqueceu, porque outros elementos entraram na composição, então os 15:35 de tempo de “Expurgo à ofensiva fálica”, refletem bem nossas influências. Entrou além do doom metal e drone music, tribal, shoegaze, experimental…

A música passa por várias nuances de suaves a pesadas, de linhas melódicas a batidas tribais. Essa ambientação foi para ilustrar as passagens das vivências presentes na letra?

Sim, foi intencional estabelecer esse diálogo! Como a letra trata tanto de início quanto fechamento de ciclos, priorizamos um ordenamento de sequência rítmica capaz de contextualizar esses processos em cada parte da música, firmando um elo entre essas duas linguagens. Naturalmente esse processo já começa nos primeiros 6 minutos da música, que são como um mantra hipnótico com Lanna e Júlia narrando e chamando atenção para a problemática apresentada na letra, sendo então, um próprio descarrego. A música logo em seguida leva à uma passagem mais introspectiva, de atmosfera etérea, num metafórico abraço às frustrações. O tribal adiante não é à toa: os “gritos internos” anteriormente proferidos são uma espécie de terreno preparatório para o expurgo, levando a uma calmaria por entre diálogos e melodias que pré-anunciam supostamente o que seria o fim de um ciclo.

A ideia é sempre tocar nessas feridas e pontos sensíveis da sociedade, na busca por uma prática que esteja voltada a pensar criticamente a realidade

A gente sabe que o rock, apesar de seu caráter libertário e contestador, está cheio de preconceitos. A banda já nessa primeira música deixa claro um sistema que perpetua as práticas de violência. O resto do disco segue a mesma pegada?

Esse é um problema concreto e real que o underground possui. Um espaço que se propõe a ser subversivo e contestador do vigente acaba por reproduzir em seu meio, a mesma sociabilidade da sociedade em geral, com suas opressões, conservadorismos e formas de ser. Machismo, lgbtfobia e preconceitos de classe devem ser combatidos no underground, assim como fora dele. Sem dúvidas as músicas que estão sendo trabalhadas terão a mesma pegada crítica, por carregar essa consciência de denúncia. Como esse projeto parte de um desejo de utilizar esse espaço de expressão de maneira política, seguindo uma estética crítica e revolucionária. A ideia é sempre tocar nessas feridas e pontos sensíveis da sociedade, na busca por uma prática que esteja voltada a pensar criticamente a realidade

Além de vocês, a bateria foi programada, vocês vão contar com participações, como as de Lanna Oliveira e Júlia Gusso que cantaram no singleem todas as músicas?

Sim. Ficamos muito felizes com a participação das vozes de Lanna Oliveira e Julia Gusso, que foi uma confluência perfeita, tanto que já pensamos nelas para as outras músicas e quem sabe se juntar a banda, em conversas informais isso já foi dito. Outras participações serão bem vindas e pensadas, priorizando mulheres como uma forma política de combater a hegemonia patriarcal no underground. As músicas que estamos trabalhando provavelmente também serão com várias influências, o que nos deixa bem à vontade para experienciar participações.