Desde que voltou pra Ribeira no ano passado, o Festival Dosol conseguiu se re-consolidar como confraternização da cena independente natalense e brasileira e como uma grande reificação do bairro histórico de Natal e principalmente da mítica Rua Chile, que é eletrificada de ponta a ponta em uma celebração de todas as suas possibilidades como casa da música urbana na cidade do sol. Em 2025, a divisão entre 6 (!) palcos praticamente simultâneos serviu como observatório da música torta e pesada (em várias faces, do punk ao grind, do shoegaze ao post punk), da música eletrônica em suas ramificações (do house ao techno, passando pelo prog, tribal e outros ramos), e do pop brasileiro em faces distintas (do tecnobrega ao indie rock). Essa união fez com que a rua tivesse sempre público, desde as 17h com Talma&Gadelha, dentro ou fora dos espaços. A Rua Chile contou com dois palcos maiores e um menor pro Slam na Rua. E três palcos em casas da rua.

Entre novos e velhos forasteiros

Nessa somatória, o destaque ficou para o estranho e brutal Octopoulpe, one-man band meio francesa meio coreana, em que gravação em vídeo e tempo real se somam numa verdadeira apresentação de power point animada versão hardcore, que fez o show mais singular da noite e do ano nessa cidade, sem medo de errar, com direito a animações com Tartarugas Ninjas até versão 80 sacana de Macron. Diretas para todos os lados.

Os paulistas do Pelados defenderam seu novo disco Contato com a naturalidade e espírito que somam duma vez só coisas como Mutantes, Fellini, Patife Band e sua contemporânea e banda-conexa Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo (da qual inclusive o baterista e o guitarra dos Pelados fazem parte), com muito humor e vibração juvenil em canções afiadas e com refrões pegajosos. Ainda entre a juventude, destaque para os paraibanos da Zepelim e O Sopro do Cão com um repertório afiado que une peso e suingue, os curitibanos do Terraplana e os Jovens Ateus (por mais que em alguns momentos as guitarras tenham feito falta) fizeram sua exposição de sons soturnos e cheios de ruído de guitarra: a uma só vez, parecia que a Ribeira virava Londres e União Soviética no balanço dos pedais.

O trio punk tropical de Aracaju Renegades Of Punk voltou depois de mais de 10 anos com o show voltado para o disco Gravidade, um dos melhores do ano, mas com pedradas de discos anteriores que fizeram a juventude punk bronzeada e pegadora de jacaré em Pium e Areia Branca se deliciar. Vários foram vistos cantando as letras e dançando empolgados vislumbrando um evento cataclísmico com Renegades, Valvulosa, Jubarte Ataca e Mahatma Gangue.

Os comediantes do Mukeka di Rato e os virtuoses da Leptospirose fizeram o Galpão 292 voltar no tempo: com essas formações, a urgência e o ímpeto festeiro, parecia o Festival Dosol de bons 15 anos atrás. Criando uma nova leva de entusiastas da música feia e agradando a velharia que estava no palco. Test e Deafkids provocaram o caos sonoro já conhecido e ensurdecedor. Uma rave do satanás. A coisa é tão séria que na banquinha da Test tinha entre camisas, discos e fitas k7 até protetor auricular. O difícil é o mesário acertar o som pra ficar “cristalino” para o público.

Pratas da Casa

No mais, destaque também para os natalenses que mais uma vez fazem do Festival Dosol sua festa de fim de ano. Sourebel com um show mais afiado a cada dia e sempre com convidados para enaltecer a cena. Talma&Gadelha com a nostalgia do pop romântico e a tarefa de abrir os trabalhos ainda com o sol se pondo no Potengi. Gracinha sempre como destaque do pop atual ladeado por Zael e Dona Liberdade. Nandrill se mostrando a cada dia mais a vontade, Dani Cruz sempre com fãs a beira do palco cantando e dançando seu samba e mostrando que cresce a olhos vistos. Camarones amealhou fãs novos e botou os antigos pra descer até o chão com a Cumbia potiguar. A DuSouto segue atraindo seu público que lotou a frente do palco para fazer uma viagem por mais de 20 anos de uma sonoridade mutante dançante.

O saldo de tudo é constatar que o festival nunca deveria ter saído da Ribeira. Sabemos das dificuldades de realizar o evento num bairro abandonado pelas administrações municipais. Mas a circulação do público e a inevitável mistura de tribos (risos) traz uma energia ímpar ao evento.

Se você chegou até aqui, é hora de agradecer. Foram 17 anos no ar. Começamos com o DoSol e terminamos (quase) com o DoSol. Ainda restam as listas de melhores do ano para passarmos a régua nessa trajetória. Obrigado a todos que nos leram, que meteram o cacete, que elogiaram, que bateram um papo e beberam uma com a gente por aí. Nos vemos nos shows. Beijo no coração.

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