Em Novembro de 2024 a Huma lançou o single “Caça” já mostrando a que vinha. Seja pela capa de Geovana Grunauer (que também assina a arte do disco), pela letra ou sonoridade. Afronta chegou para confirmar com uma pegada que mistura diversos estilos de sonoridade pesada com direito a uma versão de “Gods and Monsters” de Lana Del Rey. O quinteto formado por Cinthya Câmara (voz), Alex Duarte (guitarra), Geovana Grunauer (guitarra e backing vocal), Rômulo (bateria), Filipe Ribeiro (synth) e Joyce Sousa (baixo), mostra em sonoridade, letras e atitude de palco que tem lugar no cenário natalense, já tendo em dois anos participado de diversos eventos e festivais. Batemos um papo com a banda que você confere abaixo.
O Inimigo – A banda é relativamente nova, dois anos de existência, e agora lançou o disco. Enquanto muitas bandas lançam discos rapidamente, vocês esperaram mais. Por que isso? Fala sobre esse processo de criação.
Alex Duarte – Isso, começamos em maio de 2023, nosso primeiro ensaio. Então, acredito que essa “demora” , se deu mais porque mudamos de baterista duas vezes antes de começar a gravar o álbum, estávamos no processo de composição das músicas e tínhamos que frear para passar as músicas novamente para o baterista (no caso quando Nanda entrou, foi a terceira baterista que tivemos, e ela gravou o álbum), então foi mais por isso acredito. No processo de criação éramos até rápidos, porque a música era montada em casa, com bateria eletrônica, e em seguida as músicas eram pegadas para ensaiar em estúdio.
Os temas passam pelos sentimentos do dia a dia, entre pessoas. Temas pesados, como os dias. As letras são coletivas?
Cinthya Câmara – Sim, buscamos sempre retratar o lado obscuro, mas também crítico do ser humano. Sentimentos são gerados a partir de vivências, mas também do inconsciente. Retratamos de uma forma direta e também abstrata esses sentimentos e ideias. Deixando muitas vezes para o público a interpretação. As letras são escritas por mim, mas o processo de composição das músicas é coletivo.
É muito bom ver bandas com várias mulheres, coisa não muito comum no cenário de Natal. Como tem sido a recepção do público majoritariamente masculino?
Geovana Grunauer – A banda é formada por muitos integrantes. Uma “ruma” de gente ancorada na premissa de romper com composições restritas a um gênero só e reunidos também por propósitos políticos em comum. Muitas mulheres que elogiam nossas músicas falam de como é cativante se deparar com mulheres ocupando espaços dentro do cenário musical potiguar. Temos percebido bastante receptividade de um público de jovens adultos, uma geração mais disruptiva e aberta. Alguns rapazes sempre trocam ideia com a gente pós-show. Também recebemos apoio de nossos amigos e amigas, muitos que fazem parte até de outras bandas daqui, como a Rusty, Antiadore, Bixanu, Golpe Fatal, Besta Fera. Ficamos muito tocados também quando recebemos feedback da NW77 e do Arquivo Morto.
Por que lançar o disco apenas no bandcamp e youtube?
Alex Duarte – Na verdade, por uma questão prática, queríamos apresentar o álbum logo nessas plataformas, mas vamos lançar também nos streamings, será lançado em breve, o Dosol fará essa distribuição, quando rolar vamos divulgar.
Recentemente tivemos alguns episódios de violência contra mulheres em shows em Natal. O que não é novidade, mas foram episódios próximos uns dos outros. Como a banda tem se portado quanto a esse tipo de situação?
Joyce Sousa – Como uma banda com 3 mulheres na formação, sabemos bem como o cenário underground nem sempre é receptivo à presença feminina. E isso não é novidade, é uma realidade estrutural que se não for combatida se torna mais frequente ainda. E nesse sentido, nosso posicionamento vai além de simplesmente estar na cena: é sobre ocupar o espaço que é nosso por direito, com firmeza e consciência. Mostrando que mesmo em frente a essas situações, nao deixaremos estar presente, nem silenciaremos. Sabemos que atitudes e comportamentos machistas ainda são naturalizados nesse meio, por isso acreditamos que se posicionar é essencial. Certas condutas precisam ser confrontadas e trazidas à luz. Parte das nossas letras também fala sobre isso, sobre como pode ser exaustivo estar em determinados ambientes e ainda ter que lutar pelo básico: respeito. A opressão que enfrentamos é resultado de um sistema patriarcal que tentamos desconstruir diariamente, não apenas dentro do underground, mas em todas as esferas da vida.
Por que a versão da música de Lana Del Rey? Como o gosto dos seis integrantes ajudou a moldar o disco?
Geovana Grunauer – É um consenso: somos atravessados pela carga melancólica e intensa de Lana. Essa versão é uma singela homenagem à ela, que nos toca profundamente. A respeito das nossas influências e de como elas moldaram o disco, pode-se dizer que estão bem alinhadas com nossa proposta de não caber especificamente em uma caixa categórica e restrita, já que as referências são diversas (doom, grunge, stoner, sludge, post-punk, progressivo, alternativo). Citamos aqui Jinjer e The Gathering enquanto fortes influências musicais, com frontwoman de peso. Então cada um deposita um pouco de suas escolas nas composições. “Caça” e “Som e disfarce” por exemplo, são fortemente influenciadas pelo grunge e stoner-doom, já que sou fissurada em Soundgarden, Alice In Chains, Fu Manchu, Corrosion of Conformity, então isso acaba convergindo no processo criativo dessas composições.
Joyce Sousa – Como citado por Geovana, nossos gostos pessoais ajudam muito em não estar restrito a uma única caixa musical, e esse é uma das grandes sacadas musicais do Huma. É justamente essa grande diversidade que dá a cara do nosso som. E temos alguns pontos musicais em comum, como o grunge, stoner, Doom, post punk e bandas com presença feminina, que nos inspiram e dão a base para a construção musical da banda.
Alex Duarte – Minhas influências são muito abrangentes, na verdade gosto de falar sobre isso mais no contexto atual, então nos últimos anos tenho ouvido muito post punk/noise/post grunge (Protomartyr, Idles, The Jesus Lizard, Haunted Horses, Metz) , eletrônico, experimental. As faixas “Afronta”, “Dor e Indolência” são bem reflexo disso. Mas claro que trago também o doom, grunge que são estilos que ouvi muito em minha vida.
Bateria, guitarras e vocais gravados em 2024 na EMUFRN por Filipe Ribeiro e Victor Sitonio, pela Comuna Records. Contrabaixo gravado pela Comuna Records no mesmo ano, em Natal/RN.
Guitarra “Caça” gravada por Flávio H. França no Studio Black Hole, Natal/RN, em 2025.
Masterização e mixagem feita por Adriano Sabino em Natal/RN, no ano de 2025.
Arte por Geovana Grunauer (Grunauerarte)






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