Em Copenhagen ou em Oslo, as noites melancólicas podem parecer mais áridas na pista de dança ultimamente. Se você estiver em Natal ou em Berlim, pode ser que você sinta essa mesma aridez (apesar do frio concomitante ao clima nórdico) se alguém colocar pra tocar Big City Life, mais novo feito da dupla Smerz, formada por Catharina Stoltenberg e Henriette Motzfeldt. O som do baixo sampleado de faixas dos anos 90, o ambiente dividido por sussurros e cantos suaves, o romantismo e a fumaça das noites em claro dão forma a essa pequena joia do pop estranho: o som do duo é uma novidade que ainda está sendo devidamente classificada nos sub-Reddits da vida.
O disco começa com o synth-bass da faixa título curado junto a um beat digno de Le Tigre (outro projeto urbano e romântico assim como Smerz), mas como se o projeto eletro-punk de Kathleen Hanna ganhasse a lentidão das vitaminas eletrônicas consumidas no escuro dos clubes e porões, nos bares escondidos e nas vielas. É como se você estivesse dentro da cidade e de repente a cidade se voltasse contra você (a faixa título e o título do disco não dizem pouco, como se vê). Conforme são incorporados a bateria e um piano tocado tal qual um dos gatos do desenho Artistogatas improvisando jazz, Big City Life se torna mais ou menos dançante, ainda que a dança sugerida seja aquela estranhinha dos introvertidos. Ao longo do álbum, semi-hits de pistas e entortadores de juízo como “But I Do”, “Close”, “Feisty” e a baladona “You got time and i got money” tocam na rádio mental da grande cidade – no sítio gentrificado das cidades ocidentais, os sintetizadores, os samples e as vozes se multiplicam nas calçadas. Mas o que há de mais contemporâneo no disco das Smerz talvez seja menos o tema melancólico e agitado, como só um dia inteiro passando TikTok pra cima e pra baixo se torna, e mais a forma como esse pop (que exclui o termo ‘indie’, já desgastado e insignificante, na busca de um sentido mais estreito de significação) é um produto novo e direto do que se promoveu na música e cultura pop pós-pandemia.
Para ouvir Big City Life em plenitude, reouvir o singular Fetch the Bolt Cutters, de Fiona Apple, ofereça algumas senhas pra penetrar na sonoridade da dupla nórdica. Enquanto o disco de Stoltenberg e Motzfeldt soa a partir da timidez do trip-hop e baroque pop (lembram disso?), o experimento de Fiona Apple parte de sua chance principal em fazer um disco com toda a autonomia que lhe fora tolhida nas décadas anteriores. A autonomia de Apple se situa na forma de programar um microfone pra captar os latidos dos cachorros, o fundo de uma panela tocada com baqueta e os sons de palmas sob a mesma hierarquia dos pianos e cordas; afinal, captar o som do corpo e da casa. As Smerz, em procedimento parecido, capturam o que toca nas suas playlists e também aquilo tudo que elas imaginam que toca do lado de fora de casa: os sussurros, os passos e as imaginações urbanas. Esse novo modelo de pop esquisito tenta voltar pra dentro a experiência de produzir e receber som. Mas essa interioridade é também uma forma de capturar o corpo, seja na cidade ou dentro de casa ou por toda parte (já que as cidades do mundo cada vez mais se parecem em experiência).
A balada já citada “You Got Time and I Got Money” é o som lapidar que resume Big City Life (ainda que a favorita aqui seja mesmo a faixa título com seu baixo flutuanDo). Melodia sinfônica e lançada como single antes do disco sair, a faixa é suave e pantanosa, sobre amores perdidos ou sobre sonhos, o tom holístico da letra acerta na ambiguidade (alguém comentou no Instagram que a letra parecia ser sobre prostituição) sussurrante. A canção me lembra: The XX, Jockstrap, Kim Gordon, Liz Phair, Fiona Apple,The Verve e os correspondentes esquisitos do pop esquisito dinamarquês Astrid Sonne e ML Buch. Pessoal e transicional ao mesmo tempo, o que as Smerz produzem é da ordem do fenômeno de geração: tentar capturar o som na sua época, nas suas formas de vida e com isso encurtar o espaço vago entre a experiência individual e a coletiva.






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