Foto: Julia Bezerra Cruz

O trio The Renegades Of Funk estreou em disco no fim de 2007 com o álbum S/T. De lá pra cá já são nove lançamentos entre álbuns, EPs, splits e coletâneas. Sempre ao lado de gente da mesma qualidade como Tuna, Mahatma Gangue, Futuro, Ornitorrincos, Velho, Os Estudantes e Homem Elefante.

A banda é de Aracaju e Daniela Rodrigues (guitarra e voz), Ivo Delmondes (bateria e voz) e João Mario (baixo, synth e voz) têm seus nomes ligados a bandas importantes do passado e do presente da cena sergipana: Triste Fim de Rosilene, Karne Krua e El Presidente, respectivamente. E assim a Renegades segue sua carreira alheia à imposição dos números virtuais. É uma banda orgânica, por assim dizer, nos dias digitais.

Daniela e Ivo são os responsáveis pelas letras do novo álbum Gravidade, primeiro lançamento do trio em nove anos. Letras que abordam o aprisionamento pelas redes sociais, o capitalismo em forma de máquina e na forma do dinheiro (com trecho do Cólera com Redson ao fim), violência obstrética e adoecimento físico e mental cada dia mais presente na vida.

Batemos um papo com eles que você pode ler abaixo. Após a entrevista, confira o Faixa a Faixa do disco com Daniela.

O Inimigo – O último lançamento de vocês tinha sido o split com a Tuna. Em 2016. O que levou a voltar a gravar?

Daniela – A ideia de gravar um novo álbum, sucessor do Coração Metrônomo, vem desde logo depois do lançamento dele mesmo. Tem algumas músicas nesse álbum de agora que já vem dessa época, mais de 10 anos atrás. Por várias questões da banda e da vida, fomos deixando para um futuro próximo enquanto íamos compondo, participando de splits, coletâneas e etc… depois veio a minha gestação, tivemos nossa filha e tudo ficou uns 2 anos parado. No início de 2020 acreditamos que daria para voltar às atividades da banda de forma mais real, mas aí tivemos a pandemia e resetou tudo novamente. Depois já estávamos numa grande inércia, muitas questões de vida, família e trabalho como prioridade e a banda acabava por precisar aguardar. Só que Ivo nunca deixou de pensar no disco e manteve a chama acesa mesmo quando parecia impossível a banda voltar de fato às atividades. Ele manteve a ideia desse registro e se manteve compondo. Tudo se encaixou quando em 2023 João voltou pra banda e começamos a pré produção desse material que estava na gaveta, ao mesmo passo que compunhamos novos sons.

Durante esses anos vocês tiveram uma filha, Ivo até escreveu um livro sobre a paternidade, e vocês têm um restaurante. Somando a isso rolou a pandemia. Imagino que tudo isso permeie as músicas, certo?

Daniela – Completamente. As músicas acabaram formando uma costura de vários momentos e sentimentos ao longo desses anos.

Ivo – Sim. Eu e Dani somos parceiros de vida mesmo, temos uma família juntos, além do trabalho e da banda. Então tudo isso necessariamente se mistura quando vamos compor. Sobre o livro, não escrevi sozinho, mas participei com um texto e com a arte do Paternagem Punk.

Por mais que no release vocês digam que estão mais velhos e meio tom abaixo, parece que são como vinho. A pegada está como se nunca tivessem ficado esse tempo todo sem lançar. Como foi compor com Ivo e João esse disco?

Daniela – Obrigada, Hugo, são seus olhos! (risos) Foi incrível mesmo. Como comentei antes, Ivo sempre foi o motorzinho que não deixava a chama apagar, mesmo quando não havia nenhum horizonte futuro – e se mantinha compondo. Quando nos juntamos novamente os 3, no final de maio de 2023, deu aquela liga novamente que a gente já conhecia e foi tudo muito leve e natural. Uma parte importante de João nisso tudo também foi o fato dele trabalhar também com gravação e produção, o que nos ajudou a fazer uma pré-produção mais organizada dessa vez.

Ivo – Pois é, diferentemente de outras vezes que a gente simplesmente marcava umas horas no estúdio e gravava, dessa vez gastamos mais tempo na pré-produção, ensaiando bastante, testando novos formatos para as músicas e até gravando mesmo uma prévia simplificada. Isso ajudou a dar mais força e intenção ao disco.

O disco foi mixado e masterizado com Fernando Sanches no El Rocha. O que isso agregou a obra?

Daniela – Agregou muita qualidade. Tê-lo trabalhando conosco nesse disco nos trouxe muita tranquilidade e uma sonoridade incrível. Ele é um cara que dispensa apresentações, tem uma carreira foda e é muito gentil. Com toda sua bagagem nos ajudou a chegar sonicamente em locais que desejávamos e sempre respeitou as características da banda, dando seus inputs, mas sempre aberto para o que o disco pedia como obra. Ficamos extremamente felizes de finalizar esse disco com ele que é uma referência – crescemos como pessoas ouvindo discos feitos por ele no El Rocha.

Daniela e Nata da Manger Cadavre? se destacam como letristas em meio às bandas mais pesadas, porque escrevem fugindo do lugar comum. Me chamou muito atenção o trecho “não sei fazer refrão falando de esperança”. Também tem a faixa “Dinheiro” que um desatento pode associar a uma relação amorosa. Como foi esse processo de escrita? (Nota da Redação: Daniela disse depois que a maioria das letras são de Ivo.)

Ivo – As letras que escrevi para o disco são muito pessoais, na maioria biográficas mesmo. E muitas vezes o que me move a escrever é justamente uma tentativa de lidar de alguma forma com minhas angústias e frustrações, direcionar aqueles sentimentos a uma válvula de escape de alguma maneira. E tem sido natural escrever assim, é quase como algo confessional. E por isso “não sei fazer refrão falando de esperança, mas não é como se ela não coubesse em mim”. Ou seja, não sou só isso mas as vezes (e muitas vezes) é só o que temos pra oferecer. O disco tem poucas semanas de lançado mas já recebemos diversos relatos de pessoas que se identificaram e se emocionaram com as letras, o que prova que tem muita passando por essas mesmas coisas nesse mundo distópico que a gente habita.

Ouça Gravidade e leia o faixa a faixa do disco na sequência.

Gravidade por Daniela Rodrigues

Apenas isso
Uma música inconformada sobre estarmos perdidos em meio a cenários distópicos como a pandemia de covid 19. Jogados à própria sorte sob desgoverno genocida. E, tanto faz, um a mais um a menos: você não vale nada mesmo.

Bruxismo
Capitalismo no cerne da vida cotidiana entrando por todas as esferas e contaminando tudo. Ideologia, fetichização, psicossomatização e precariedade da vida em todos os aspectos.

Invisível
Invisibilidade social dos mais vulneráveis, ser invisível por estar à margem da sociedade.

Sempre Angústia
Um sentimento constante angustiante de inadequação, defeito, de não pertencer frente às expectativas e demandas da sociedade.

16
Pequenos recortes do cotidiano que enchem nosso saco, nos fazem querer largar tudo, mesmo tendo uma esperança lá dentro de que as coisas podem mudar.

Tudo bem
Ausência masculina tão comum em tantas famílias brasileiras mostram o quão misógina nossa sociedade é, isentando o genitor de todas as mazelas e culpa enquanto tantas mulheres seguem carregando o peso do mundo nas costas.

Dinheiro
“Esse cheiro fedorento”, como dizia o Cólera, dinheiro, esse ente tão desejado e tão odiado. Que nos faz de escravos, que nos inebria e nos faz de refém, uma canção odiosa que nos lembra dessa ambiguidade dessa coisa que amamos odiar.

Máquina
Apocalipse motorizado. Uma breve leitura da relação homem-carro-trânsito. uma crítica simbiose psíquica entre motor e mente, potente como um idiota.

Meio tom abaixo
Continuar fazendo punk rock aos 40, com obrigações, dores nas costas, tocando meio tom abaixo, mas ainda aqui: vivos! A vida acontece, as contas chegam, perdemos cabelos, entes queridos e colágeno, mas ainda estamos aqui.

Ciseaux
Fala diretamente sobre violência obstétrica, machismo estrutural, desprezo pela medicina baseada em evidências e pelo protagonismo feminino num dos momentos mais animais e corriqueiros da humanidade: o parto. Nos amarram, nos cortam contra nossa vontade, nos machucam e revestem tudo isso com uma aura de saber médico que é uma grande balela – e estamos fartas!

A etimologia da palavra “cesarea” tem origem no verbo caedo -is, cecidi, caesum, caedere, que significa cortar e está presente nas palavras ciseaux, do francês, e scissors, do inglês – ambas significam “tesoura”.

Para mais insights sugiro a matéria: https://piaui.folha.uol.com.br/materia/de-cocoras-no-pais-da-cesarea/

Cortaram meus olhos
Uma música sobre a quase impossibilidade de ser mulher e ter liberdade, na sociedade em que vivemos, especialmente se você desafia as normas de feminilidade. Misoginia, lesbofobia e o extermínio das que cruzam a fronteira do que é esperado.

Feitiço
Fala sobre tecnologia e controle. Sobre como caímos cegos na armadilha brilhante das telas. Entregamos tudo a eles (principalmente nosso tempo) de mão beijada porque é mais forte que nós e eles sabem disso. É mais do que mera publicidade, eles sequestraram nossa atenção com uma poção bizarra de marketing e hormônios. É o feitiço!

Misoginia
Autoexplicativa: fala sobre o ódio às mulheres, sobre a impossibilidade de agradar uma sociedade que se estruturou sob exploração sexual das mulheres e que nos agride e nos mata todo o tempo. É uma guerra sem trégua.

Depressa
É uma música sobre ansiedade/depressão. Daquela sensação de que às vezes, não importa o que você faça, o ar vai começar a pesar e é só uma questão de tempo até você voltar aquele lugar já lhe é familiar, denso e com uma gravidade própria te pregando ao chão.

Produzir
Reprodução da vida e da espécie sobre os ombros da classe sexual feminina, enquanto gerencia a vida e contribui com a máquina girando, precisa entregar-se à síndrome de Estocolmo social e amar (e servir) a seu agressor.

Asa quebrada
Sobre um sentimento de inadequação e não pertencimento que às vezes nos toma por inteiro, sobre o quão difícil é aguentar o fardo. Sobre muitas vezes querer fugir de tudo.

Uma resposta para “The Renegades Of Punk: Entrevista + faixa a faixa do álbum Gravidade”.

  1. […] lançado no dia 8 de março e tem tudo a ver com boa parte da temática das músicas. Fizemos um faixa a faixa com Dani (guitarra e voz) logo após o lançamento do […]

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