Voltamos com nossa clássica listinha de recomendações para o folião badernista que quer curtir um som no Carnaval, mas sem abrir mão de encher o saco dos outros.
Quem acompanha a gente ao longo dos anos (cof, cof) já notou que a listinha foi mudando de proposta com o passar do tempo: se antes, a ideia era indicar discos de música troncha que poderiam colocar o leitor em situação de risco durante a folia de Momo, agora a gente continua indicando discos tronchos, mas que podem agradar outras almas empenadas que estiverem por perto.
Pense na nossa seleção da seguinte forma: cada disco aqui é como uma bomba de Maizena na sua mão. Fica ao seu critério lançar no próximo, e ao critério do próximo entrar na brincadeira também ou retaliar em igual medida.
Confira a seleta, clique nas capas para ouvir, e depois não diga que a gente não avisou:

Sepultura – Roots
Esse é bom porque dá pra enganar legal no discurso: diga que vai botar um disco de rock, mas tranquilize dizendo que é “rock com música brasileira”. Se alguém chiar, tente apaziguar dizendo que Carlinhos Brown participa e tem até música com berimbau, olha só. Depois do play, observe as reações de uma distância segura. Se o negócio ficar muito selvagem, esfrie os ânimos com um banho de água mineral na galera (mas pode ser da torneira também, tranquilo).

General Junkie – General Junkie
O primeiro disco do General Junkie é perfeito pra arrepiar no Carnaval porque além de som ser quente, suado e feder a gela choca, ainda traz um cardápio de fantasias nas músicas: tu pode sair de “Brinquedo do Cão”, de “Típico Local” ou de “Fiscal da Natureza” que dá certo demais. Puxe a rede, tome uma de cana, fique embebedado(a) e saia pra vadiar na avenida.

The Mummies – Play Their Own Records!
Outro que é bom porque já vem com dica de fantasia. Esgote o estoque de papel higiênico de casa, transforme-se em uma múmia folha tripla e preste tributo à banda de rock mais bagaceira de todos os tempos. O som desse disco, uma coletânea de EPs e singles mal gravados e lançados só em vinil há mais de trinta anos por selos que você nunca ouviu falar, é diversão pura e perfeito pra embalar os foliões menos ortodoxos que sabem valorizar a boa fuleiragem, independente do estilo.

Esdras Nogueira e Grupo – Transe
Esse é outro que dá pra disfarçar antes de colocar. Vá chegando sorrateiramente perto do som e avise que vai botar um som de Caetano. Enquanto a galera estiver achando que você vai botar um Muitos Carnavais, surpreenda com essa versão instrumental do clássico Transa, entre o jazz e o afrobeat. O bom é que o som já tem um clima de bloquinho, então deve agradar geral a hipsters e troianos. Bônus: desafie os amigos bêbados a cantar as músicas originais por cima das versões e observe as cenas lamentáveis que virão.

Arnold Dreyblatt & The Orchestra of Excited Strings – Propellers in Love
Arnold Dreybaltt é um multi-artista: performer e artista visual que faz instalações que misturam texto e vídeo, palavra e imagem, o alemão é músico e toca contrabaixo e cello. Nesse disco de 1986, gravado com Jan Schade, Wolfgang Mettler e Wolfgang Glum, o músico conduz um dínamo entre a música erudita e o acid jazz, cheio de pedais de distorção nos instrumentos clássicos e cheio de empenação terrível. Bom pra ouvir nas primeiras horas do carnaval junto aos clarins de Momo.

Vários – Spiritual Jazz: Esoteric, Modal +Deep Jazz from the Underground (1968-1977)
Pra você que já tomou muita coisa até a segunda-feira de carnaval e se sente com o espírito carregado, fica o convite pra dar play nessa coletânea de obras-primas do jazz esotérico. Caminhando por diversas vertentes da música modal da segunda metade do século XX, interpretada nos porões dos clubes de jazz, esse disco é um belo panorama do potencial místico da música instrumental, conduzindo ao transe pela via do improviso.

Carl Off & Chorus of Children’s Opera Group – Music for Children
Arranjado pelo compositor alemão Carl Orff, o repertório do Chorus of Children’s Opera Group é um clássico da música erudita pra ensino infantil e pra execução de corais e grupos com vozes infantis predominantemente. O efeito de uma escuta atenta dessa pequena pérola de fim dos anos 50, disponível nos streamings mais próximos, é ao mesmo tempo acalanto e, a depender do contexto, condução de espíritos desconhecidos pra dentro de casa. Dependendo de como batem as substâncias, pode ser que pareça trilha sonora de filme de fantasmas. Pra ouvir logo após o dia inteiro nas Ladeiras de Olinda é uma benção.

Reverend Kristin Michael Hayter – SAVED!
Quando deu um descanso ao cognome Lingua Ignota, Kristin Hayter outorgou a si o título de reverenda e lançou o demoníaco SAVED!, disco que parece ter sido composto diretamente de uma prisão de freiras no século XVIII. Mesclando técnicas de cantos órficos com músicas folclóricas levadas no piano, Reverend Kristin Michael Hayter compõe uma paisagem sonora cheia de fantasmas, espectros e bruxaria. Não há melhor som pra ouvir no abrir da quaresma.

Os The Darma Lóvers – Os The Darma Lóvers
Banda brasileira com muita canção budista levada na viola e muita boa vibração pra você se desfazer da fantasia sem culpa. Os The Darma Lóvers lançaram esse disco homônimo em 2004 e são um curioso caso de banda mística no cenário independente brasileiro daquela década. Vez em quando parece uma grande rodinha de música de igreja mas dá pra relevar e aceitar a oferta dos irmãos. Fica a sugestão de dar play em ‘O Cara da Flor’ logo antes de descer pro bloco.

Black Future – Eu sou o Rio
O disco de estreia e único da carreira da Black Future é um ícone da música brasileira. Sem amarras, tem samba, pós-punk, hip hop. Mostrando um RJ de verdade longe das imagens turísticas. O vai e vem de ritmos e o jeito de Satanésio cantar – quase declamando – pode turbinar os entorpecentes do carnaval ou dar um bode geral. Veja lá qual o momento que você vai dar o play!

Banda Fuzuê – 1993
Pra quem gosta dos sons da Bahia, tem que ouvir 1993 da Banda Fuzuê. Clássico samba reggae mas que também tem até forró. Temas do dia a dia como andar de ônibus (se ligue na introdução de Buzú que a Baiana System usou como sampler), a versão mais reggae que samba de “Avisa lá” clamando por uma tocha. Esse é só pra quem curte o som baiano das antigas. Não tem trocadilho infame, não tem dancinha escrota e nem manda tirar o pé do chão.

Ruína – Autofagia
Autofagia vem do grego e significa comer a si mesmo. É isso. Na hora que você achar que já deu, que cansou da cara das almas sebosas na sua casa, meta o play nesse petardo e veja todo mundo entrar em colapso. O vocal parece um suíno desesperado. Acho que deu pra entender o que é a brincadeira.

Conjunto Sempre Alerta – Feito Para Você
Direto de Macau, terra do mela mela do carnaval potiguar, a primeira banda de rock do RN. Um clássico. Banda formada no grupo de escoteiros da igreja. Sob as bençãos do padre João Pena Filho e gravado na Rozenblit, em Recife. Jovem Guarda e Surf Music embalam a obra, mas também há espaço para temas de faroeste como “Revolução” que abre o lado B. O repertório do disco é dividido em instrumental e músicas com vocais em conjunto tal qual os The Beach Boys. Disco pra botar no começo do dia, pra ir animando e dando ideia da fantasia. Antes da maquiagem e fantasia virarem cinzas e você pedir arrêgo.






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