Mandando minha listas às portas de fevereiro, na cara dura. Alguém ainda se importa? Tanto faz, se for antes do Carnaval tá valendo. Tudo isso pra dizer que 2024 foi um ano corrido por aqui e acabei ouvindo poucos discos lançados ao longo do ano (se o papo for pesquisa de velharia, são outros quinhentos).

Dito isso, aqui vai minha modesta lista com alguns dos discos que curti no ano que passou. Tentei evitar ao máximo repetir os eleitos por Hugo Morais, mas não pude evitar ao menos uma figurinha duplicata. Todos os discos estão disponíveis nos bandcamps das bandas, no streaming que você usa, no YouTube. A internet tá aí pra ser desbravada. Quem quer achar, acha.

Eis a lista:

Gracinha – Corpo Celeste

O disco mais aguardado e comentado da cena potiguar fez jus à espera. Corpo Celeste é uma tapecaria delicada, em que o pop se expressa de forma não óbvia, mas reconhecível e de fácil assimilação. O bom gosto dos timbres e dos arranjos casa bem com as letras intimistas de Isa Graça, que já na estreia se apresenta como uma voz com muito a dizer e potencial de ultrapassar as barreiras da província.

Glote – Melancolia Ultra

Pra mim, a estreia mais interessante do ano. Vigoroso, juvenil, melancólico, esquisito, sonhador: é o empeno com coração e alma. Faixas como “WXNDY” e “Joy Division” (essa, uma composição do grande Yuri Costa) são despachos contundentes da nova e vigorosa cena rock carioca. Olhos e ouvidos neles.

El Presidente – Beleza Tem Cura

De Sergipe, vem outra boa estreia. Projeto que reúne músicos das bandas Renegades of Punk e Cidade Dormitório, El Presidente faz rock empenado de primeira, com personalidade e visão própria. Há muito de psicodelia sim, mas sem estrangeirismos desnecessários (ver o molejo irrestível de “Baía Branca – Weird Bossa”). Alguém soltou aqui na redação que parece Cidadão Instigado no meio de uma lombra de cola. Ouça e descubra.

Jeff Parker ETA IVetThe Way Out of Easy

Enquanto o Tortoise dorme, Jeff Parker vem criando uma discografia solo muito interessante. Seja colaborando com bambas como Daniel Villareal, experimentando com loops sozinho (Forfolks, de 2019, explora essa proposta com ótimos resultados) o guitarrista só entra em campo pra ganhar. Esse aqui é uma jam gravada ao vivo na última noite de funcionamento do ETA, um pico de jazz em Los Angeles onde Parker e o quarteto formado com Anna Butters (baixo), Jay Bellerose (bateria) e Josh Johnson (saxofone) costumava se apresentar toda segunda, desde 2016 (tipo a Segunda do Vagabundo deles). Quatro temas em mais de uma hora de som que evidencia o entendimento, a capacidad de diálogo e a criatividade livre entre os músicos curada em quase 10 anos tocando e improvisando juntos.

Hermeto Pascoal & GrupoPra você, Ilza

O Bruxo voltou aos estúdios para registrar 11 temas compostos em homenagem a sua esposa Ilza, que faleceu em 2000. Se isso não for a coisa mais linda do mundo pra você, recomendo uma ida ao médico porque talvez o coração véi já tenha deixado de bater aí no peito.

Kim Deal – Nobody Loves You More

Enquanto o Pixies segue passando vergonha, Kim Deal vai bem demais, tanto com as Breeders quanto solo. Bonito, catártico, emocionante, o disco foi composto enquanto a artista cuidada dos pais idosos, ambos com Alzheimer, e muitas músicas falam dessa situação diretamente. Ouça “Are You Mine?” com esse contexto e tente não se emocionar, vá. Os arranjos delicados de metais realçam a criatividade de Deal como compositora, sempre curiosa e disposta a explorar soluções melódicas pouco convencionais. Discaço.

Oruã – Passe

O grupo liderado por Lê Almeida vem vindo numa curva ascendente há algum tempo, e segue melhorando a cada disco. Em Passe, a banda costura o experimentalismo do excelente Íngreme (2021) com o punch de Romã (2019) e sai com um disco doido, divertido, lisérgico e inegavelmente brasileiro.

Rafael Castro – Vaidoso Demais

Depois de quase dez anos sumido dos estúdios, o cronista do cringe voltou com gosto de gás. Sorte nossa, porque os anos que corridos entre esse e o disco anterior ( o irregular Um Chope e um Sundae, de 2015) deram material de sobra pro olhar sarcástico e certeiro de Rafael Castro. Dos hipsters de boteco (“Bar e Lanches”) às infernais operadoras de celular (“Pessoal da Claro”), ninguém escapa. Sem falar que o cara é um melodista de mão cheia, o que só melhora a greia.

Christopher Owens – I Wanna Run Barefoot Through Your Hair

Ninguém esperava um disco novo do doidão do Girls em pleno 2024, ainda mais um disco bom. Mas ainda bem que veio aí, pra lembra que Owens ainda é um dos compositores mais interessantes surgidos na esfera alternativa (seja lá o que isso for) nos ultimos tempos. Frágil e caloroso, como os discos da sua ex-banda, não deixa a peteca cair nem quando cita Roxette. Boa surpresa.

Geordie Greep – The New Sound

Samba de gringo com pronúncia estranha, pop sexy funk, guitarrinhas à Tim Maia Racional, suítes progressivas… tem de tudo na estreia do ex-líder do Black Midi. Gravado com músicos brasileiros, é tão aloprado quando os discos da ex-banda do bicho, porém mais expansivo e por vezes quase pop. Delírios de um anormal sim, mas com suíngue.

Tela Azzu – Baleia Explode

Surpresa boa vinda da vizinha João Pessoa, os caras da Tela Azzu têm muitas ideias na cabeça e o feeling certo pra executá-las. Nós aqui da redação pudemos ver e comprovar ao vivo, na discreta porém instigante passagem deles por Natal no segundo semestre de 2024. Quem viu, viu. Mas quem perdeu é bom sintonizar logo, porque daqui a pouco o terceiro mundo vai explodir e quem não curtir o under-hit “Os Boyzin” não sobra.

Pajux, Found a JobHousadeira, Vol. 1

É pra anotar: 2024 será conhecido como o ano em que Natal se sagrou como capital nacional (continental? mundial?) da house music. E o primeiro tijolo da casinha veio nesse EP delicioso, pelas mãos e mentes de dois produtores que transmitem direto do coração da cena. Ao tratar a capital potiguar e seus espaços como parte do mundo, a dupla apresenta um trabalho ao mesmo tempo universal e personalíssimo na abordagem dos temas, texturas e sons.

Cindy Lee – Diamond Jubilee

Sem subir no Spotify e demais streamings correlatos, com trinta e duas faixas em mais de duas horas de duração, vinil duplo e CD triplo. Para todos os efeitos, Diamond Jubilee é um desobediência total às convenções do momento, e que bom que é assim. Nada disso explica o hype aloprado e a comoção geral (ainda mais levando em conta que é o sétimo disco do projeto/persona drag do canadense Patrick Flegel, ex-Women), mas acende uma vela de esperança na vida pós-streaming. Indicado pra quem gosta de RuPaul’s Drag Race, tosqueira sessentista e David Lynch.

The Hard Quartet – The Hard Quartet

Supergrupo é um conceito complicado: ou dá muito certo (Boygenius) ou dá muito errado (SuperHeavy, quem lembra?). Felizmente, o The Hard Quartet cai na primeira categoria. Composta por um timaço de astros do mundinho alternativo (Stephen Malkmus do Pavement e SM & the Jicks; Matt Sweeney do Chavez; Jim White do The Dirty Three; Emmett Kelly do The Cairo Gang), a banda soa de fato como um encontro entre os envolvidos e não uma mera colagem de estilo. Com jeitão melancólico à anos 70, “Rio’s Song” é o hit indie do ano, disparado.


Relançamentos, resgates & afins:

Video Hits – Doces, Refrescos e Tratamentos Dentários

Lembra quando o Weezer prestava? Pois é, a Video Hits é dessa época e, depois dos Los Hermanos (falando sério), talvez tenha sido a banda brasileira que melhor soube traduzir com sotaque próprio a estética do rock de pombão: melodias pueris encontram guitarras esquisitas, algum suíngue e letras doidas como as de “Cozinha Oriental” ou “Trombetas de Isaías” a 80 km/h. Essas e outras pepitas estão aqui nesse relançamento especialíssimo da Monstro Discos, que resgata o primeiro CD demo da banda, lançado originalmente em 2000. Permita-se descobrir — ou relembrar.

Tom Verlaine – Warm and Cool / Around / Songs and Other Things

Três discos da reta final da discografia solo do ex-líder do Television que nunca haviam sido reeditados em vinil, que dirá nos streamings. Golaço do selo Real Gone Music, que revela a fase mais jazzista do guitarrista, algo entre a trilha sonora de um filme noir e uma jam madrugada adentro. Classe.

Bob Dylan & The Band – The 1974 Live Recordings

A turnê de Dylan com The Band em 1974 já tinha rendido um ótimo disco ao vivo – o duplo Before the Flood – mas esse box amplia a visão desse período às raias do exagero. Ao todo são 417 (!) faixas ao vivo em 27 CDs (!!), praticamente a turnê inteira. Claro que tem muita figurinha repetida de um disco pro outro, mas o conjunto se justifica por incluir faixas que raramente aparecem em outros registros ao vivo, incluindo o repertório o injustiçado Planet Waves, que Dylan promovia à época.

Neil Young & Crazy Horse – Early Daze

Um apanhado de gravações dos primeiros dias da Crazy Horse, ainda com o guitarrista Danny Whitem na formação. A rigor não tem nada de novo no repertório e nem no tipo de material, já que ultimamente Young desova pelo menos um desses por ano. Mas de toda forma, é bom encontrar essas canções em versões lânguidas e despojadas, com aquele jeitão de fita demo gravada no ensaio. Dá até pra imaginar que é uma banda de garagem qualquer, e não um dos últimos dinossauros do rock a caminhar sobre a terra.

Uma resposta para “Melhores de 2024: Alexis Peixoto”.

  1. Avatar de AUGUSTO J B SCHMIDT
    AUGUSTO J B SCHMIDT

    A #listadaslistas passou por aqui

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