A Sourebel é um projeto em construção. Ainda que exista há quase uma década, resistindo e se recriando desde a Zona Oeste de Natal, levantando a bandeira da comunidade do bairro periférico do Bom Pastor, a banda lança nessa sexta (24/11) o primeiro ato (ou primeira parte) de sua nova peça que irá aparecer nos palcos potiguares e streamings da grande rede mundial de computadores. Na verdade, as canções aqui apresentadas já tem aparecido em palcos da cidade, basta ficar de olho (e se não for de Natal, basta dar uma fisgada e chamar pra junto de si a expressão da periferia natalense que está de olhos abertos pra fora da aldeia). Sucedendo a Tudo o que nos cerca, de 2018, lançado no âmbito da mesma Incubadora Dosol que estampa o novo disco, o quase-EP Chamegos é produzido por João Victor Lima (VZL Swami), e Walter Nazário e contém umas novidades que podem surpreender quem esperava ouvir algo próximo aos sons passados da banda.

Conversamos com Ermeson Davi, o Memé, e Mateus Fortunato, respectivamente o vocalista e o baixista da banda, a respeito dessa nova fase:

O último disco da Sourebel já saiu faz um tempo, e de lá pra cá a banda mudou de formação e também de norte estético, por assim dizer — digamos que a imagem de ser uma banda de reggae ficou mais de lado. Como foi esse processo de aproximação a uma estética diferente nesse novo lançamento?

No último disco, a ideia era juntar os elementos da música jamaicana com os ritmos tradicionais nordestinos. Já para esse novo, rolaram muitos estudos, testes e adaptações, mas respeitando a nossa trajetória, junto ao que o público espera da gente. Colocamos nosso olhar sobre o que vem sendo feito atualmente nas periferias do nordeste, como a bregadeira, a arrochadeira e o bregafunk, ritmos que são bastante presentes nas comunidades de Natal, que é de onde viemos. Tudo isso, somado a influência dos afrobeats (Nota do repórter: Apesar de ser praticamente o mesmo nome mas com um ‘s’ definitivo no final, ‘afrobeats’’ não é o mesmo que ‘afrobeat’, o ritmo popularizado por Fela Kuti. Os ‘afrobeats’ são somas de dancehall, hip hop, grime, cloud e outros ritmos eletrônicos).

No final, todas essas influências vêm de um mesmo lugar: a diáspora africana. Além disso, essa mudança também tem a ver com a nossa nova formação e com as ideias dos novos integrantes – isto porque partimos para um som mais eletrônico, distanciando um pouco do orgânico, como era anteriormente.

Como foi o processo de estruturação dessas novas ideias e quais são as influências ou os novos discursos que vocês trouxeram pra banda?

O gatilho para organização das ideias foi o convite do Dosol em lançar o segundo disco pela Incubadora. Entramos num intensivo de composições que fluiu muito bem, já que todos os 5 componentes compõem e já tinham ideias e beats guardados. Logo, o trabalho foi mais para reunir tudo e tentar montar um conceito que fizesse sentido pra gente.

O primeiro disco é bastante político, mas ele trata de assuntos que vieram de lugares de muita dor para nós, são músicas com mensagens muito diretas e que em sua maioria narram o contexto violento da periferia de Natal. Nesse segundo, queremos falar não somente de opressão, mas também sobre as diferentes formas de amar, sobre a beleza e autoestima do nosso povo mesmo em meio a tantas mazelas que nos assolam diariamente. Por fim, decidimos dividir nosso novo álbum em 3 atos, sendo o primeiro deles esse Chamegos, trazendo músicas que falam sobre a dor, o conforto e desejo que o amor nos provoca.

Capa do EP Ato I – Chamegos, lançamento da Incubadora DoSol.

Como vocês se veem no novo cenário potiguar? Onde o Sourebel se localiza na cena natalense, quais relações vocês estabelecem, como são as interlocuções com outros sons?

A gente se vê muito mais maduro do que na época que lançamos o disco anterior. Passamos o período de pandemia parados e existia um certo receio de como seria esse nosso retorno, principalmente pelas novas músicas trazerem temáticas diferentes em relação ao nosso trabalho anterior. No entanto, o retorno do público tem sido muito positivo. As relações que criamos com artistas da cena refletem muito nas músicas que vamos lançar. Não dá para revelar tudo ainda, mas a gente promete que haverá muitas participações de artistas de estilos muito diferentes.

No Chamegos, por exemplo, 2 das 3 músicas são feats com artistas que são amigas pessoais da banda. A Gracinha, uma das participações, conhecemos desde o período em que ela tocava na banda Demonia, e chegamos a viajar e tocar juntos com a Ardu, outra banda em que ela é baixista e João Victor, que toca synth conosco, é guitarrista e vocalista. Cami Santiz, apesar de ter pouco tempo de bagagem, já tem se destacado na cena musical de Natal e tivemos a honra de compor “Me Deixou Down” com ela.

Ouça a seguir o EP Chamegos, da Sourebel:

One response to “Chamegando pós-diáspora: a nova fase da Sourebel”

  1. […] como também para a história do festival. O destaque principal foi a apresentação histórica da Sourebel, banda originalmente de reggae e que passeia por diversos estilos da música negra, enquanto narram […]

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